
Neste momento, torna-se necessário abrir-se um parênteses para explicar a origem do nome dado aos diários de Renata Agondi. Revolution 9 não é bem o que se possa definir como uma música. E embora a discografia oficial dos Beatles afirme tratar-se de uma composição de Lennon e McCartney, Essa colagem sonora nasceu da irreverência do casal John Lennon e Yoko Ono.
Antes mesmo do primeiro sucesso dos Beatles (Love Me Do), John e Paul haviam firmado um acordo, no qual toda composição feita por um ou por outro seria de ambos. Daí Revolution 9 aparecer no White Álbum, gravado em 1968, como mais uma parceria da dupla. Mas podem estar certos, Paul seria a última pessoa da Terra a reivindicar a paternidade de Revolution 9 .
Em resumo, John influenciou-se nas canções experimentais de Yoko e ela o ajudou várias vezes em quais tape-loops seriam bons para esta mixagem. Assim, esta gravação de John resultou não exatamente em uma canção dos Beatles, mas sim uma gravação totalmente experimental com um aspecto bastante sinistro. John disse que gastou maior parte de seu tempo em Revolution 9 do que na maioria de suas canções. O White Album é um marco na trajetória do grupo inglês. Ele representa o início do fim.
Se dependesse do produtor George Martin, White Álbum teria sido uma produção densa e coesa, como Rubber Soul ou Revolver . Mas como ninguém quis abrir mão de nada, o histórico álbum primou pelo exagero.
No entender de Martim, no máximo 14 das 30 faixas seriam o suficiente para dar ao álbum um toque de qualidade apurada. Mas se permitiu a inserção de inconseqüências como Wild Honey Pie (com Paul tocando todos os instrumentos) enfraquecendo o disco em comparação a outros mais importantes do quarteto.
Lennon era contrário a inclusão de Ob-la-di, Ob-la-da , da mesma forma que Revolution 9 deve ter merecido de McCartney reação idêntica.
Mas na hora de tocar, os Beatles conseguiram transformar cada duelo de egos em uma vantagem sonora. O piano tocado com a sutileza de um coice na introdução de Ob-la-di, Ob-la-da foi o jeito malcriado de Lennon expressar que achava a canção composta por Paul McCartney uma absoluta bobagem. A pirraça deu energia à música e ficou.
Revolution 9 é, na verdade, uma colagem de ruídos, fitas ao contrário, comentários sem sentido e traz uma estranha e anônima voz repetindo: "number nine, number nine, number nine..." A quem diga que a voz seria do próprio Lennon. Outra versão, no entanto dá conta de tratar-se da fala de um engenheiro de som da EMI do qual não se sabe o nome. John teria retirado essa gravação de uma fita.
A composição nada tem a ver com Revolution e Revolution #1 , embora entre os sons compliados destaque-se o take 18 de Revolution #1 . John adicionou vários efeitos de um mellotron sendo tocado ao contrário.
Apesar do seu aspecto um tanto estranho Revolution 9 repercutiu entre os fãs, oscilando entre amor e ódio. Muitos a consideram a pior faixa dos Beatles, mas não por acaso, outros a definem como um marco da história do grupo. Revolution 9 dá nome a um dos principais fãs-clubes dos Beatles, e serviu para que Renata Agondi rebatizasse seu diário, até então denominado “Meu Querido Diário de Bordo”.
Quando a mudança ocorre, ela, aos 17 anos, vivia uma fase de transição em sua vida. Revolution 9 nos parece um nome muitíssimo apropriado aos cadernos que passaram a guardar os momentos, sentimentos e idéias de uma garota apaixonada não apenas pelos Beatles, mas principalmente pela vida.
O White Álbum é marcante na história dos Beatles, e Revolution 9 é emblemático na medida em que reflete o comportamento que passa a nortear a vida dos Beatles, principalmente de John Lennon, ao qual o número 9 se mostra intimamente ligado.
LENDA - O White Album virou lenda menos pela música que por outros fatos relacionados. Mesmo que involuntariamente, ele inspirou o psicopata metido a profeta hippie Charles Manson a comandar crimes sangrentos na Califórnia, como o assassinato da atriz Sharon Tate (na época casada com o cineasta Roman Polanski), em agosto de 1969.
Após ser preso, Manson disse que achava que músicas como Helter Skelter e Black Bird tinham mensagens ocultas que lhe mostravam necessidade de matar e promover o caos para promover uma revolução.
Manson acreditava também que os Beatles eram anjos mandados a Terra por Deus para anunciar aos homens sobre o terrível apocalipse que se aproximava, e que eles teriam feito isso por intermédio das faixas do White Album .
As canções, segundo interpretações de Charles Manson, instigavam ao suicídio ( Yer Blues ), emitiam os sons do Armagedon, trazidos pelos anjos do Apocalipse ( Revolution 9 ), sugeriam a destruição (a versão de Revolution contida no disco, a Revolution #1 , um take mais lento do famoso single da banda e na frase "But when you talk about destruction... don't you no that you can count me out..." eis que imediatamente após a última palavra (out) uma voz pronuncia de uma forma bem clara "in") e, principalmente, as guerras raciais figuradas em diversas músicas.
Essas guerras raciais são sugeridas por Manson em, por exemplo, Piggies , que seriam os porcos brancos e Blackbirds , possivelmente os Panteras Negras. Notava no fade de Piggies , sons de metralhadoras, sugerindo guerra declarada, o caos total, as guerras entre raças, a destruição, a revolução final.
Foi a conseqüência mais trágica do hábito de fãs de procurar pistas em letras, achando que os Beatles eram uma espécie de novos líderes mundiais. Isso já estava tão forte, antes mesmo de Manson, que foi ironizado por Lennon na música Glass Onion .
Tudo isso obscurece em parte o valor musical do White Album . Inegavelmente, porém, trata-se de um dos melhores - senão o melhor - disco de rock feito sob más relações pessoais.
WHITE ALBUM - Composto basicamente durante o retiro dos Beatles na Índia, o White Album , como ficou mais conhecido, levou cerca de seis meses de trabalho de estúdio. O disco mais diversificado da Banda foi também o primeiro indício que o grupo estava se separando. Pelas palavras de Lennon, "Era John e a banda, Paul e a Banda, George e a banda..." A constante presença de Yoko Ono e os primeiros problemas com a Apple faziam deste um álbum tenso.
Os beatles escreveram 34 canções durante sua peregrinação indiana, e estas forneceram base para o White Album . As 30 músicas que o compuseram foram gravadas a partir de maio de 1968. Elas foram dispostas em dois LPs (em CD, o álbum chegou ao mercado apenas em 24 de agosto de 1987, cerca de 19 anos depois do lançamento do disco na Inglaterra, em 22 de novembro de 1968 - nos EUA, isso ocorreu três dias após), em uma coletânea de vários estilos musicais como Rock'n'Roll, Blues, Reggae, Soul, Country, Pop e mesmo uma colagem avant-garde ( Revolution 9 ).
The Beatles, como o disco verdadeiramente é intitulado, refletiu um crescente abismo entre John e Paul no tocante a seu interesses artísticos e pessoais. Ele também implica em um adeus à fase psicodélica da banda e um prelúdio do que seria a Música Pop do início dos anos 70. A própria capa, totalmente branca é exatamente o oposto do último disco Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band .
Os trabalhos individualizados produziram um álbum que mostrava uma grande diversidade estilística. além de desmentir a idéia de que Paul só compunha canções pop de amor unidimensionais feitas através de uma fórmula – a maioria das musicas com influência do rock and roll eram composições suas.
O Álbum Branco foi o último disco dos Beatles a ser lançado em versão Mono e Estéreo. Há uma variação enorme das duas mixagens, tanto que o disco em mono é 20 segundos mais curto que o estéreo.
Acompanham o disco um poster com colagens e quatro fotos dos Beatles. O interessante é que uma minúscula foto incluída no poster, que mostra Paul nu, causou mais polêmica do que a foto de John, muito maior e igualmente pelado, atendendo um telefone ao lado de Yoko.
Lançado no final de 1968, entrou para o Guiness Book como o disco que mais vendeu nos EUA em uma apenas uma semana (pouco mais de 2.000.000 de cópias), façanha que só foi alcançada pelos Beatles. Pela 1ª vez crítica e público aceitaram que as músicas eram individuais, sendo que isso já era notado desde os primeiros trabalhos da banda em sua segunda fase.
Um fato curioso sobre o White Album : Paul McCartney tocou bateria em 3 músicas deste disco: Back in the USSR, Dear Prudence e Why don`t we do it in the road , em que Paul tocou todos os instrumentos.
Paul estava no auge da sua fase folk rock nos Beatles e fez músicas como Rocky Racoon, Blackbird, Mother Nature`s Son e I Will. Mas McCartney é McCartney, e ele também surpreende com as pauleiras como Back in the USSR , hit digno da coletânea azul e a dançante Birthday.
Tenha ainda a canção que é considerada o primeiro Heavy Metal da história: Helter Skelter , uma porrada na orelha com aquele vocal rouco que só o Paul consegue fazer. Não poderiam faltar as baladas como Martha My Dear com uma bela execução de piano a cargo de Paul; Ob-la-di,Ob-la-da , canção no estilo música de cabaré. Desponta ainda a divertida Honey Pie (lembrando o jazz dos anos 20).
George Harrison pela primeira vez consegue emplacar um hit nas paradas com a belíssima While My Guitar Gently Weeps uma das melhores músicas do beatle quieto, que conta com o belíssimo solo de guitarra de Eric Clapton, na época, integrante do Cream.
Em Piggies , na qual George ressalta seu lado político-ideológico, o solo de cravo dá o tom. Savoy Truffle é uma música mais soul rock com direito a solo de sax e outro de guitarra no melhor estilo George. Uma curiosidade é que essa música foi uma homenagem do guitarrista dos Beatles a Eric Clapton, que adorava doces, principalmente trufas.
Lennon também foi brilhante compondo clássicos como Sexie Sadie , alusão feita ao comportamento inconveniente de Maharishi, o guru indiano tirou proveito dos Beatles até quando pode, além de assediar sexualmente as mulheres do grupo que acompanhou os Beatles em seu retiro indiano.
Em uma alusão ao Maharishi, em Sexie Sadie , John cantaria “Sexie Sadie, what have you done/You made a fool of everyone” (Sexie Sadie, o que você fez/você fez todo mundo de idiota). Dear Prudence, Glass Onion e I`m so tired , são outras das grandes contribuições de Lennon ao álbum.
John mostrou neste disco o quanto podia ser tão versátil como McCartney, fazendo baladas como em Julia, uma melodia triste mas muito bonita, até loucuras como Everybody`s Got Something To Hide Except For Me And My Monkey , e seus poderosos Yer Blues e
Happiness is a Warm Gun , com um ritmo complexo no meio da canção e os vocais lembrando Paperback Writer .
Ringo conseguiu ter um ótimo desempenho como instrumentista, em Helter Skelter ele esmurrou os pratos como eles mereciam ser esmurrados, suas levadas estavam muito mais trabalhadas, havia realmente evoluído como instrumentista, mas como compositor. No álbum ele canta sua primeira composição original, Don`t Pass Me by .
Além das músicas do disco, os Beatles ainda gravaram nestas sessões Hey Jude, Revolution , (que seriam lançadas em Single), Not Guilty (música de Harrison, não incluída no álbum e regravada em 1979 pelo próprio guitarrista em seu disco George Harrison ), What´s The New Mary Jane (outra loucura de John, também não incluída). Ambas só seriam lançadas nos anos 90 no disco Anthology 3 .
Além destas, outras músicas foram compostas, mas só veriam a luz do dia em projetos solos dos Beatles, como Jubilee (Junk , no disco McCartney ), Child of Nature (Jealous Guy , do disco Imagine ) e Circles (do disco Gone Troppo ).
O disco foi lançado em Novembro de 1968 e alcançou o 1º lugar no dia 27 do mesmo mês, sendo o 1º álbum duplo a alcançar tal posto e ser o disco duplo de maior vendagem da história ( apesar de ter sido batido em 1977 pela trilha de Saturday Night Fever ). Em 1998, uma versão do CD, com capa dupla contendo o poster e as fotos originais é lançado para comemorar o aniversário de 30 anos do álbum. |