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Histórias de ´quase´ ídolos da várzea
Nos bons tempos, até o Armando Gomes vinha narrar as partidas
Por Jordan Fraiberg
Fotos: Reprodução e Rogério Amador
Na região das Ruas Lobo Viana, Conselheiro Nébias e próxima ao canal 4, onde o metro quadrado de construção é um dos mais caros de Santos, há quase um século ficavam os campos de várzea mais antigos da cidade. O campo Vila Hayden ocupava o terreno onde hoje se encontra a Universidade Santa Cecília. O Ipiranga, que é considerado o vovô da várzea, ficava do outro lado, os dois times separados pela Rua Oswaldo Cruz, que hoje é um dos centros universitários e comerciais santistas.



Naquela época era comum ver os diversos times da cidade se defrontarem em algum campo do município, onde os prédios altos elevados nem estavam sendo planejados.



Era semi-final. Estávamos indo, com nossa torcida, para o campo do Barreiros, em dois caminhões. Ia ser um jogo duro, pois a equipe adversária tinha os melhores jogadores da competição.



O campo foi sendo rapidamente cercado pelos torcedores. Aproximadamente uns 600 deles estavam lá. Era um time muito popular. O campo não possuía arquibancada, naquela época a torcida ficava em volta de onde seria o jogo.



O público era fervoroso, daqueles fanáticos pelo time. Nossa torcida só tinha 40, se acontecesse algo eram 15 deles contra um nosso, era uma enorme desvantagem.



Em uma jogada deles um torcedor acabou chutando a bola para dentro do campo, lance que impediria a jogada e quase eles marcaram um gol. Ficamos revoltados. A torcida rival ficou nervosa e invadiu o campo. Todos nos cercaram, era jogador, técnico, torcida e até mesmo quem estava lá só para assistir. Numa tentativa de sair daquela situação, dois jogadores nossos sacaram armas calibres 38. Vimos os dois atletas girarem, vagarosamente, com a arma em punho, mirando todos os que nos cercavam.



Assim que acabaram de dar uma volta completa, a torcida e time sumiram num piscar de olhos. Era gente escalando bananeira, pulando muro, se cortando em espinhos e se atrapalhando para correr. Felizmente nenhum tiro foi disparado e podemos voltar a salvo para casa. Para nossa tristeza o jogo foi cancelado e perdemos o jogo remarcado, com portões fechados no Estádio da Portuguesa.




Essas palavras são do ex-zagueiro Jair Leite Siqueira, que explicou como era um clássico na época áurea da várzea santista nos anos 60.



Lembranças - A várzea de Santos, nos moldes atuais, começou em 1920, com alguns poucos clubes. O mais velho é o Ipiranga, de 1919. Meses depois surgia a equipe da Vila Hayden. Os dois times eram vizinhos de bairros e de campo.



"Todos sabiam da existência da várzea, mas nem todos sabem a história de como ela surgiu e foi se tornando popular", diz Jair, que hoje exerce a função de diretor de futebol para veteranos do Saldanha. Ele jogou por três anos no São Paulo, do bairro Macuco.



Jair e Carlos Prieto, mais conhecido como Gigi, criaram dois sites para relembrar os tempos em que jogavam:

www.giginarede.com http://www.varzeasantista.com/





. "Já passei dos 60 anos e agora vai ficando cada vez mais difícil. O que vier é lucro. Quando chega nessa idade, os problemas de saúde já estão surgindo, alguns amigos da minha turma já morreram e eu queria lembrar do passado", acrescenta o ex-são paulino.



"Só nos encontrávamos, o grupo todo, quando morria alguém. Há três anos atrás eu disse: Porque nos encontramos só na desgraça? Vamos nos encontrar também na alegria", comenta Jair. A partir disso, surgiu à idéia de duas vezes ao ano reunir todos os ex-atletas da várzea santista.



Na primeira tarde que houve a reunião, Jair pediu para que todos os seus amigos levassem fotos da época em que jogavam. "Antes de acontecer um segundo encontro, avisei antecipadamente para todos levarem mais fotos", conta. Com as fotos em mãos, o ex-jogador começou a digitalizar e afixá-las nos painéis. "Foi um total sucesso, o pessoal adorou. Hoje tenho mais de 200 fotos do futebol de várzea santista e ainda mantenho meu site", diz.



Clubes e campeonatos Entre 1940 e 1950 foram os anos em que as pessoas fundaram mais times de várzea. Existe um cálculo que entre a década de 40 e até o fim dos campos, em 1990, havia em torno de 400 times, podendo até ser mais.

Os principais clubes daquela época eram o Barreiros, Vasco, Onze Santista, Escola de Samba Brasil, São Paulo, Santa Cecília e Vila Santista.



Nos primeiros anos de 1960, cerca de 60 times disputavam os campeonatos locais. Nos anos seguintes, os números de inscritos só aumentavam. No ano de 1965 eram 72 clubes jogando entre si.

Os campeonatos sempre eram patrocinados por alguma empresa. Por felicidade dos jogadores, as empresas sempre eram do jornal ou da rádio. "Até Armando Gomes narrava os nossos jogos à beira do campo", comenta Jair Siqueira.

Os times que eram eliminados logo no início dos torneios e aqueles que não participavam, disputavam somente jogos amistosos entre si. Não importava a época, todo o domingo havia jogo.



Em cada partida eram três jogos. Primeiro havia o infantil, logo após entrava o segundo quadro, que seriam os reservas do reserva ou os atletas que estavam iniciando nas competições e o time principal.



Do segundo quadro dos clubes surgiram alguns bons atletas, de acordo com Gigi. "Muitos atletas da várzea se tornaram profissionais. Alguns foram contratados pela Portuguesa Santista, Jabaquara, e diversos foram para o Paraná, onde o futebol ainda estava se desenvolvendo", conta.

Gylmar dos Santos Neves, bi-mundial, aparece em uma das fotos de 1950. Antes de jogar no Corinthians e no Brasil, o atleta participava de jogos na várzea santista. O último torneio importante que teve foi o III Torneio da Baixada Santista, em 1975.



Espaço para jogar - Os campos eram usados três vezes, pois nem todos os times tinham espaço pra jogar. No domingo, o dia inteiro, e sábado a tarde algum campo era revezado entre os clubes que não possuíam espaço físico para jogar.

Em Santos, existia em torno de 100 campos. Os mais freqüentados foram: Vila Santista, Beira Mar, Colonial e Vila Liberdade, onde hoje se encontra algumas residências perto da saída da balsa.

Além desses campos também havia os do BNH, Santa Cecília, 1º de Maio, Onze Brasileiro, Pombal, Campos Salles, Pioneiros, e onde é o conjunto habitacional do Jaú havia dez campos.



Todas as partidas eram disputadas com os pés descalços. Quando A Tribuna começou a patrocinar as competições, a empresa exigia que os atletas usassem chuteiras.

A dimensão dos campos era de 75 x 110. A partida era dividida em dois tempos de quarenta minutos.



Rivalidade - Cada bar de esquina tinha uma placa mostrando que lá havia um clube, de acordo com os criadores dos sites esportivos. A maioria das partidas era aberta a todos. Qualquer um poderia sentar ao redor do campo e acompanhar a partida. Com isso, as torcidas dos times mais populares aproveitavam para instigar o rival e provocar confusões.



"O time que tinha muita torcida não admitia perder o jogo e, por isso, partia para briga. Não tinha polícia para segurar todos os presentes", diz Jair, que também presenciou muita briga e participou de poucas.

Gigi acrescenta que, na segunda-feira todos se encontravam para trabalhar junto, porque a maioria trabalhava no cais. "Quando o jogo era bom, com equipes equilibradas a fim de só ganharem o jogo, não tinha briga", comenta.



2008 - "Hoje a situação é bem diferente. Quase não tem campo na cidade para se jogar, falta apoio e até mesmo o companheirismo, que naquela época existia", conta Gigi.

A turma de Jair, que varia entre 52 a 80 anos de idade, concorda que os tempos atuais estão fracos. O presidente da Liga Desportiva de Santos, Joel, tem a missão de ascender o espírito esportivo dos amadores no futebol. Ele utiliza ferramentas como o Campeonato Cidade de Santos de Futebol Amador para relembrar de épocas em que a cidade só respirava isso.



Os ex-jogadores concordam que para se ter um campeonato bom, como antigamente, seria necessário ter aproximadamente 30 campos. Joel conta que atualmente existem dez campos, entre clubes privados e as agremiações esportivas.

Jair diz que os campos foram sumindo porque os proprietários dos terrenos queriam algo que rendesse mais.



"A partir dos anos 80 e 90, foram construídos inúmeros prédios e casas, desalojando as equipes de seus campos", conta Jair.

"Se fosse para relembrar dos excelentes campeonatos que havia aqui, na década de 60, as cidades de Praia Grande, Cubatão, Mongaguá, São Vicente e Itanhaém estão fazendo um bom papel", afirma Jair Siqueira, que hoje tem um torneio com seu nome em homenagem.

Jairo Barga, que sempre esteve envolvido com futebol amador e exercia funções na direção de um clube santista, relembra que os domingos eram maravilhosos. "Agora os clubes lidam com mercadorias, se um sócio não paga a mensalidade por um mês ele já é cortado, fica como inadimplente e não usufruiu das locações do clube e, assim, deixa de bater sua bola no domingo." Ele também conta que o futebol de várzea está esquecido e gostaria de poder voltar ao passado.



História - Futebol de várzea é uma denominação brasileira, típica do estado de São Paulo, convencionada ao futebol praticado de forma amadora e organizada.

Surgiu a partir da prática do esporte bretão em campos feitos na várzea às margens do rio Tietê, antes mesmo de haver profissionalismo no Brasil.

Esta prática amadora fez surgir os primeiros times, também conhecidos como Clubes de Várzea. Estes clubes são sociedades informais que funcionam como ponto de encontro de amigos nos fins de semana.



O perfil do jogador varzeano é de uma pessoa que trabalha o dia inteiro, eventualmente faz outras atividades físicas e, que pratica no final de semana o futebol ou, ainda, de ex-jogadores profissionais.

Há jogadores que chegaram a ser profissionais, mas não conseguiram dar continuidade em suas carreiras e vivem de eventuais prêmios pagos pelos clubes varzeanos por participações em torneios amadores.



Destaque - A Tribuna publicava no dia 1º de novembro de 1902: "Por iniciativa de um grupo de rapazes, tendo à frente o jovem Henrique Porchat de Assis Dick Martins, teve lugar na Praia da Barra um training de football que foi o primeiro a ser realizado não só nesta cidade como em todo o litoral paulista. A tentativa aprovou em cheio. É um divertimento que, em se o amparando, dar-nos-á em glórias, tudo".



"Era precisamente 8 horas e 25 minutos quando rolou, para ser disputada por duas equipes, na cidade de Santos, a primeira bola de futebol aqui chegada".

Fonte: Matéria publicada em 26 de março de 1964 pelo jornal.



Equipes da várzea santista -

1º de Maio A.C.

Amor e Glória

Bandeirantes F.C.

Barreiros

Beira Mar F.C.

Botafogo F.C.

C.A. Juventus

C.A. Libertador

Campos Salles F.C.

CIA Docas de Santos

Cosipão

Cruz de Malta F.C.

E.C. Corinthians Santista

E.C. Faísca de Ouro

E.C. XI Santista

Flamengo F.C.

G.E. Camboja

Globo F.C.

G.R. 814

G.R. Brasil

Jabaquara F.C.

Jaú F.C.

Luiz Gama F.C.

Palmeiras A.C.

Paulistano F.C.

Ponte Preta F.C.

São Paulo F.C.

Tricolor Santista

União F.C.

Vasco Futebol Clube

Vila Hayden

Vila Liberdade F.C.

Vila Santista F.C.