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| Mestre no impresso, blogueiro por acaso
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| Lições de Josias de Souza, colunista e blogueiro da Folha de S.Paulo, Prêmio Esso em 2001 |
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| Por Revista |
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Blogueiro dos mais respeitados do País, Josias de Souza confessa que não foi dele a iniciativa de criar o seu diário virtual, mas da Folha de S.Paulo, onde é colunista. Não tinha familiaridade com a Internet e o máximo que sabia era digitar textos, mandar e receber e-mails. Precisou de ajuda técnica para inserir textos e imagens. Valeu a pena, para ele e os leitores. Ele admite que ficou surpreso com a receptividade e até com o aumento do número de fontes.
Formado no Centro de Ensino Unificado de Brasília, já integrou a equipe de jornalismo do Correio Brasiliense e há 20 anos trabalha na Folha de S. Paulo, onde exerceu diferentes funções — de repórter a secretário de redação, sem nunca ter abandonado o que considera a essência do jornalismo: a reportagem.
“Não interessa o meio, o que conta é o bom jornalismo, com precisão, relevância e exclusividade”, ensina. A paixão pelo jornalismo nasceu por influência de uma professora de português, que cruzou o seu caminho no Ensino Fundamental.
Em co-autoria com Gilberto Dimenstein, publicou em 1994, o livro A História Real Editora Ática, que revela os bastidores da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Com uma série de reportagens batizada de Os Papéis Secretos do Exército, Josias de Souza, em parceria com Andréa Michel, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo Região Sudeste em 2001.
Josias de Souza concedeu esta entrevista pela Internet e falou sobre o futuro do impresso, o aprofundamento da notícia e a questão do diploma para o exercício da profissão, entre outros assuntos.
Ponto.com — O ombudsman da Folha de S.Paulo, Mário Magalhães, publicou recentemente um artigo sobre o futuro dos grandes jornais que, ao que tudo indica, será mesmo na Internet. Qual é a sua opinião a respeito?
Josias de Souza — Tudo indica que, de fato, o futuro dos jornais passa pela Internet. Não há, porém, consenso quanto ao prazo da migração, que pode ser total ou, o mais provável, parcial. O avanço dos jornais rumo ao meio virtual depende, sobretudo, do anunciante. Nos Estados Unidos e, principalmente, em países da Europa, alguns grandes anunciantes já se convenceram de que a divulgação de seus serviços/produtos na Internet é um bom negócio. No Brasil, esse processo se dá de forma bem mais lenta.
Ponto.com — Em termos de qualidade e aprofundamento, existe diferença entre o jornalismo on-line e o impresso?
J.S. — Nos meios impressos, o espaço é finito. Na última década, submetidos a uma realidade econômica adversa, os grandes jornais e revistas viram-se compelidos a podar o consumo de papel. No jornalismo on-line, o espaço é, em tese, ilimitado.
Ponto.com — Por que a imprensa, de modo geral, é tão criticada hoje? Isso tem a ver com a redução das equipes de reportagem e do conseqüente aumento de produção de cada repórter?
J.S. — A diminuição das equipes, outra conseqüência da contenção de custos que os meios de comunicação viram-se obrigados a fazer, piorou o produto. Os jornais são mais rasos. Os assuntos são apenas insinuados. Não há aprofundamento dos temas. Escassearam as chamadas grandes reportagens, de maior fôlego. Curiosamente, porém, não é esse o aspecto mais criticado. As queixas estão mais voltadas para à suposta parcialidade de alguns veículos. A crítica é vocalizada especialmente por gestores públicos e filiados a partidos políticos que, nos últimos anos, tornaram-se personagens de um noticiário impregnado de malfeitorias e escândalos. Há, obviamente, muito por fazer em termos de aperfeiçoamento da prática jornalística. Mas não creio que se deva dar importância desmedida a reparos feitos por pessoas que não têm legitimidade para fazê-los. É preferível dar ouvidos ao consumidor tradicional de notícias.
Ponto.com — O senhor hoje mantém um blog que é muito acessado. Hoje, um jornalista precisa ter um blog? Como foi a sua adaptação para a linguagem desta nova mídia?
J.S. -— Não vejo a criação de blogs como uma necessidade. No meu caso, o blog foi inaugurado a pedido do jornal, não por iniciativa pessoal. Não tinha grande familiaridade com computadores. Usava-os apenas para redigir textos para o jornal e para enviar e receber e-mails. Precisei de auxílio técnico para dominar a máquina e as suas ferramentas. Não sabia como inserir textos no blog. Não tinha a menor idéia de como deveria proceder para associar imagens aos textos. Quanto à linguagem, não houve grandes alterações. Como colunista do jornal, eu já desfrutava de uma certa licença para exercitar um estilo de texto menos formal. De resto, no papel ou na Internet, o que conta é o bom jornalismo: precisão, relevância, exclusividade. Em essência, o que importa é o furo jornalístico, bem apurado e bem contado.
Ponto.com — O senhor acha que a notícia on-line, que muitas vezes é publicada com imediatismo, interfere na qualidade da informação?
J.S. — A pressa, evidentemente, é irmã gêmea do erro. E numa atmosfera de "tempo real", o flerte com o equívoco é mais intenso. Do meu ponto de vista, tento contornar o problema reduzindo minha taxa de ansiedade. Prefiro levar dez furos a cometer um erro. Por isso, coloco a precisão adiante da pressa.
Ponto.com — Em relação ao seu blog, qual é o retorno que tem de seu público-leitor?
J.S. — O retorno é bastante expressivo. Manifesta-se pelo número de comentários apostos pelos leitores abaixo de cada notícia. Revela-se também no acesso que tenho às fontes de informação. Quando migrei do jornal para o blog, tive o receio de que minhas fontes escasseariam. Para minha surpresa, elas aumentaram. Tornou-se mais fluido o meu contato com políticos, autoridades governamentais, empresários, ministros de tribunais superiores. Minha impressão é a de que essas pessoas já se deram conta da importância da Internet como difusora de notícia. Sabem que do outro lado há milhões de leitores.
Ponto.com — Muitas informações só ganham credibilidade por parte dos leitores, quando são publicadas em veículos impressos. Qual é a sua opinião a respeito?
J.S. — Creio que é um fenômeno natural. Há na Internet recantos confiáveis e espaços que não merecem crédito. Creio que o problema é menos intenso no meu caso. Assim como no caso de outros jornalistas, o blog que administro está ancorado na Folha Online e no UOL, dois portais vinculados ao selo de qualidade da Folha. Ou seja, quem visita sabe que encontrará ali informação coletada segundo a boa técnica jornalística. De resto, sou jornalista há mais de duas décadas, o que tende a inspirar confiança nas pessoas.
Ponto.com — Em relação aos Estados Unidos e à Europa, que estão cada vez mais investindo no jornalismo on-line, como avalia o crescimento deste mercado no Brasil?
J.S. — Como disse anteriormente, creio que o processo é mais lento no Brasil porque aqui, diferentemente do que ocorre em outros países, os grandes anunciantes ainda não se convenceram de que a Internet é um bom balcão para os seus produtos.
Ponto.com — O senhor acha que é possível fazer reportagem sem sair da redação?
J.S. — Certas reportagens podem, sim, serem produzidas na redação. Outras exigem o deslocamento do repórter. A maioria enquadra-se no segundo caso.
Ponto.com — Qual a relação que o senhor tem com a reportagem? O que lhe dá mais prazer e visibilidade? Reportagens ou artigos?
J.S. — Já ocupei diferentes cargos executivos na redação da Folha, na sucursal de Brasília e na sede. Mesmo nesses períodos, jamais deixei de produzir reportagens e artigos. O que dá mais prazer, evidentemente, é o furo, a boa reportagem.
Ponto.com — Que perfil o repórter deve ter atualmente? O senhor acha que o repórter hoje deve ser multifuncional?
J.S. — Um bom repórter precisa apenas de duas ferramentas: curiosidade e bom texto.
Ponto.com — O senhor concorda com a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo? Por quê?
J.S. — Já convivi com ótimos repórteres que não dispunham de diploma. Também já tive a oportunidade de acompanhar o trabalho de péssimos repórteres diplomados. Por isso, embora seja jornalista formado, não vejo no diploma uma pré-condição para o exercício da profissão.
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