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A segunda e apaixonante opção
Ele não enfrenta guerras nem guerrilhas, mas nem tudo são flores, cultura e charme em Buenos Aires. Na capital portenha e nas cidades latino-americanas — onde o corresponde internacional Airel Palácios atua —, os jornalistas enfrentam pressões dos governos e das máfias contra a imprensa.
Por Revista
Repórter, pauteiro, arquivista, fotógrafo, secretário, office-boy. Assim é o correspondente internacional Ariel Palácios, do jornal O Estado de S. Paulo. Ele não pôde ser diplomata pelo Brasil como sonhava, por não ser brasileiro nato. Teve de se conformar com a segunda opção, o jornalismo, que lhe possibilitaria o que sempre sonhou: lidar com política internacional, conhecer vários idiomas e ser testemunha da História.

Radicado em Buenos Aires há 12 anos, Palácios batalhou arduamente para realizar o seu desejo de conhecer diversos países. Cursou um ano de Direito, a fim de entrar no Instituto Rio Branco, a escola onde estudam os diplomatas. Barrado por ser argentino naturalizado brasileiro, não desanimou. Avistou no jornalismo um meio de concretizar os objetivos e ingressou no curso de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina.

Primeiramente pensou em ir para Lisboa, já que admira a culinária e o povo lusitanos. Mas o noticiário do além-mar, inexplicavelmente, não desperta o interesse dos veículos brasileiros. De férias na capital argentina, encontrou-se com Juan Aznárez, correspondente do jornal espanhol El Pais, que conheceu quando fazia a pós-graduação, em Madri. Aznárez comentou que havia poucos correspondentes brasileiros na Argentina. Na época, em 1995, somente a Folha de S.Paulo e a Gazeta Mercantil. Sugeriu então ao amigo que explorasse esse nicho de mercado.

Palácios então ofereceu o seu trabalho como free-lancer para O Estado de S. Paulo. A primeira condição era de que ele deveria se instalar em Buenos Aires. Mudou-se para lá, começou a enviar reportagens e depois foi contratado como correspondente.



Cosmopolita, cosmopolita, cosmopolita



Para o jornalista, a principal característica que um correspondente deve ter é o cosmopolitismo. “Um texto elegante e a capacidade de revelar detalhes também são importantes para transmitir ao leitor, de maneira interessante, aspectos do país em que se encontra”. Ele revela ainda um dado curioso: ao contrário do que se imagina, há situações em que o correspondente não possui grande conhecimento de idiomas, como é o caso do seu colega Aznárez, que viajou o mundo apenas com o espanhol e com um inglês de poucos recursos. “Entretanto, seu trabalho é brilhante, e por isso pode prescindir de outras línguas”.

Palácios, que fala português, espanhol, inglês, francês, italiano, alemão e tem conhecimentos de russo, diz que o correspondente deve ser generalista, já que ele faz as funções de repórter, pauteiro, arquivista, fotógrafo, secretário, office-boy. Tudo isso, acrescenta, com “uma paciência de Jó”. Sua capacidade lhe rendeu trabalhos para as emissoras de rádio Suíça Internacional, CBN e Eldorado, além do jornal El Pais.

Para realizar de forma competente o seu trabalho, tem na tecnologia digital uma grande aliada, que acelera a produção e a edição do texto. “O intercâmbio de informações veloz, através dos sites noticiosos, é uma ajuda fenomenal, pois antes ficávamos limitados às fontes, rádio, jornais e TV”.

No seu modo de ver, a imprensa brasileira é mais rigorosa, faz boas análises do passado recente e do presente, com grande espaço dedicado à Economia. Já a “prensa” argentina é o oposto: pouco rigor, mas com ótimas apreciações sobre o futuro a curto e médio prazos, proporcionando espaço maior à Política, com um texto mais elegante. Em comum, ambas sofrem das dificuldades de se fazer jornalismo na América do Sul:

“Há pressão e ameaças por parte dos governos e de máfias contra os jornalistas, e muitos jornais sofrem elevada dependência da publicidade oficial. Sem falar dos salários geralmente baixos e da incapacidade do mercado de absorver o grande número de profissionais formados todos os anos”.



Projetos



Aos 41 anos, Ariel Palácios pretende permanecer na capital portenha, onde prepara dois livros sobre a Argentina. Um a respeito das particularidades políticas, culturais e econômicas e outro sobre o turismo em Buenos Aires. Também faz parte de seus planos aprofundar os conhecimentos sobre a América Latina, já que costuma cobrir eventos no Uruguai, Paraguai e Chile. Além disso, planeja colocar em prática um de seus hobbies — a ficção-científica, e escrever livros sobre o assunto: "A política na Argentina é um verdadeiro realismo fantástico. Depois de doze anos aqui fica fácil ter um enredo para uma ficção científica irônica”.

Com vasta experiência na função de correspondente — atualmente também realiza matérias para o canal Globo News —, Palácios é uma fonte de inspiração para os jornalistas que desejam viajar o mundo, colhendo informações e retransmitindo-as ao público, como uma verdadeira testemunha da História.