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Amigo - nem tanto - da onça
Comer não é pecado, mas é visto como tal. Entenda como uma alimentação organizada e o esporte podem jogar no mesmo time
Por Sheila Almeida
Depois de horas de exercícios chega o final de semana. Você sai com os amigos para passear numa noite maravilhosa, veste aquela roupa que fica muito bem no seu corpo e, de repente, um vilão aparece na sua frente para lhe atormentar.

À medida que você adentra no recinto, el, e o vilão toma cada vez mais conta das suas vontades. Sua resistência não agüenta mais. Aquele pedaço de pizza brilhoso por causa da gordura lhe chamou a atenção quando o garçom o fatiou para servir, e o queijo derretido, se esticou da bandeja para o prato. Como se não bastasse essa imagem cruel, o aroma se torna cúmplice, despertando a gula e enchendo a boca d’água. O crime está planejado.

Se esta cena lhe pareceu familiar, acalme-se, pois o assassinato da sua dieta não precisa ser tão pecaminoso assim.



É claro que há motivos para preocupação, pois uma alimentação balanceada é um cuidado essencial à saúde, principalmente de quem pratica esportes. Porém, não é crime hediondo escapar da rotina da mesa quando nos preparamos para isso, explica a nutricionista do Santos Futebol Clube, Sandra Pires Meronço, formada há 11 anos e pós-graduada em nutrição esportiva na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ.



Uma fatia de pizza de mussarela de 130 gramas corresponde a aproximadamente 328 calorias kcal. Essa mesma soma também pode ser encontrada em uma casquinha de siri num simples cachorro quente com mostarda ou até mesmo em 250 gramas de uma inocente sopa de lentilha caseira. “Tudo é questão de balancear a alimentação, o que não pode acontecer é ingerir por exemplo, muito carboidrato e pouca proteína, ou vice-versa. A necessidade nutricional é algo muito peculiar a cada pessoa”, explicou Sandra.



Isso significa que, dependendo da qualidade e quantidade de alimentos que você ingerir, pode-se trocar determinados ingredientes de uma refeição por um pedaço de pizza na janta, sem nenhum prejuízo nem desconforto para a visão, já que seus olhos teriam de encarar os ponteiros da balança.



Essa peculiaridade de cada um é que faz com que o peso ajude ou atrapalhe no desempenho do atleta, e dependendo do esporte, faça a diferença no tatame, nas chuteiras ou nas sapatilhas.



Sapatilhas - Estereotipada, a bailarina logo sugere a imagem de uma menina magra e delicada. O grande detalhe é que há exceções, como a família Duarte Marques, em que peso e a elegância se misturam, através de gerações.

Célia Duarte Marques tem 44 anos de idade e é formada por duas escolas de bailado, o Teatro Municipal de São Paulo e o Ballet Stagium. Após muitas apresentações, decidiu lecionar as peripécias das sapatilhas, mas faz 15 que sua ferramenta de trabalho, o corpo, ganhou forma: mede 1m64 e pesa 100 quilos.

Observando vídeos de quando ela se apresentava é possível comprovar que a baixinha da dança era mesmo pequenina. “Seguia minha dieta com disciplina e era bastante magra, pesava cerca de 55kg”. Isso se explica facilmente. De acordo com Sandra Meronço, cada pessoa tem uma necessidade de ingestão de calorias, dependendo da atividade física que pratica e do metabolismo do atleta.



Os jogadores do Santos Futebol Clube, por exemplo, gastam de um a três quilos de seu peso total, por jogo. Isso requer uma dieta específica para a necessidade individual, o que também significa que uma dieta nutricional é momentânea, passageira. Não adianta consultar o nutricionista uma vez e não voltar nunca mais. É necessária uma nova receita de acordo com o avanço da idade ou a mudança do tipo e da quantidade de atividade física. Isso não aconteceu com Célia Duarte, pois desde que começou a dar aulas, não voltou mais à nutricionista e, por perder menos calorias ensinando, ela dançou: ganhou os 50 quilos a mais de presente. Mas como isso não é um peso na consciência dela, vamos falar de outra bailarina, Vaniky Duarte Marques.



Vaniky, ou Niky, como gosta de ser chamada é a filha da Célia Duarte e, como filho de peixe peixinho é, “foi batata”, a garota está no 7º ano de ballet clássico, mede 1m60 e pesa 67 quilos. Nas fotos, dá para perceber que antes, ela era ainda mais gordinha. Para Célia, a filha tem tendência a engordar, pois desde pequena é fofinha. Já o site DietaJá, da UOL, discorda. Lá, uma reportagem escrita por Vladimir Maluf, através de uma entrevista com a endocrinologista e nutróloga Vania Assaly, “há duas formas de tendência. Existem as pessoas com padrões genéticos de obesos e outras que têm mais prazer por comer”. Vaniky diz que tem tendência a engordar por causa de sua mãe, mas concorda que quando era mais nova, comia mais. Só a partir dos 12 anos começou a reparar mais na quantidade e na qualidade dos alimentos que ingere, para ficar mais bonita e mais saudável.



Niky conta que na escola onde estuda existem outras meninas mais gordinhas que ela. Elas são ou já foram motivo de chacota na turma. A professora Célia Duarte afirma que é cada vez mais comum chegarem gordinhos e gordinhas nas academias de dança: ”de uns anos para cá tem mais gordinha que esbelta”.



A afirmação da professora se comprova com a pesquisa realizada ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE. O estudo apontou que em 30 anos, o número de crianças e adolescentes do sexo masculino acima do peso no País subiu de 4% para 18%. Entre as meninas, o número foi de 7,5% para 15,5% e, atualmente, a obesidade atinge 6 milhões de jovens brasileiros, inclusive crianças. A obesidade pode trazer complicações como hipertensão arterial, e outras doenças do coração, diabetes, dificuldade em respirar, fadiga, além de depressão e perda de auto-estima.



Célia ressalta em suas aulas que quer os alunos de bem com o próprio corpo. Ela sempre ouve reclamações das crianças dizendo que não conseguem encolher a barriga ou manter a postura igual a de outras crianças mais magras. A dica que dá nesses momentos é para que parem de ir ao Mc Donalds, troquem o refrigerante pelo suco e comam menos pães por dia. “Para mim o importante não é estar esteticamente bonita para o ballet, mas é se sentir bem consigo mesmo e com os movimentos executados”.



Chuteiras - O contrário de Vaniky que precisa emagrecer é o lateral-esquerdo do Santos, Kléber. O jovem é o que mais dá trabalho à nutricionista, pois ao invés de eliminar alimentos da dieta, ela elimina a miséria na hora de montar o prato.



A cada partida, ele chega a perder três quilos e se toda a reposição ficasse por conta da ingestão de alimentos, “ele teria que comer até pelos ouvidos”, brinca Sandra. Para suprir a energia, o jogador conta com a ajuda de complexos vitamínicos e alimentos com maior quantidade calórica. Isso acontece porque o metabolismo do atleta é mais rápido do que o da Vaniky, aliás, o metabolismo é outra desculpa muito utilizada pelos gordinhos que não conseguem comer menos. Mas, afinal, o que e metabolismo e como se medem as calorias?



De acordo com a nutricionista Milena Lima, formada pela Universidade Católica de Santos Unisantos e colunista do site Ciberdiet, “o metabolismo é o conjunto de reações químicas responsáveis pelos processos de absorção de nutrientes na célula. Para identificar a quantidade de calorias unidade de energia gastas num dia é preciso somar fatores como peso quem pesa mais possui necessidade calórica maior, idade com o avanço da idade o metabolismo diminui, sexo os homens possuem mais massa muscular e por isso o metabolismo é mais acelerado e nível de atividade física a atividade física aumenta o metabolismo”. No site, Milena explica que os músculos também influenciam no gasto energético, portanto os homens possuem um gasto calórico maior do que as mulheres.



Geralmente quando uma pessoa emagrece, há uma diminuição na necessidade de ingerir a mesma quantidade calórica. Assim, após um tempo o corpo se acostuma a essa restrição e “pede” menos energia para suas funções vitais. Daí o metabolismo diminui, se adaptando a tal restrição. Esse é o chamado Efeito Platô.



Para medir o valor calórico dos alimentos é mais complicado. Deve-se calcular quanto cada macronutriente carboidrato, gordura e proteína fornece de energia. Assim, multiplica-se a quantidade dele pelo valor energético que ele fornece por grama. Para isso é mais fácil contar cada macronutriente a cada 100 g de alimento. Os carboidratos têm 4Kcal/g. As gorduras, 9Kcal/g. A proteína, 4Kcal/g. Para não errar a conta é necessário consultar um nutricionista.

Tatame – Há quem use a facilidade para engordar de maneira a se beneficiar, pois o excesso de peso também pode ser algo necessário, como no caso da judoca Priscila Marques de 30 anos de idade. Ela participou das Olimpíadas de Sidney em 2000, de dois panamericanos 1999 e 2003, além de levar a medalha de bronze no Pan Rio 2007. Diferente de Vaniky, ela não quis emagrecer, aproveitou seu biótipo para redefinir sua caminhada. Contra as vontades da mãe e após sete anos, percebeu que não levava jeito para as sapatilhas: trocou o collant pelo quimono.



No caminho, ao invés de ficar sob o linóleo material emborrachado que fica no chão do palco para que a bailarina não escorregue, Priscila Marques quis pegar mais pesado com seus sonhos. Aos 11 anos pôs os pés ainda com sapatilhas em cima do tatame e resolver ficar, sonhando com o que vive atualmente.

Hoje, com 120 quilos, a atleta além de treinar, visita escolas para falar da importância de aliar o esporte à educação, uma jogada deliciosa.



Tabela:

Aprenda a gastar calorias em atividades simples:

Arrumar a cama – 140kcal

Fazer supermercado – 245kcal

Passar aspirador – 175kcal

Varrer o chão – 185kcal

Lavar o carro – 300kcal

Andar rápido – 280kcal 30 minutos

Andar 30 minutos com o cachorro – 150kcal