Home
Sobre
Equipe
Email
Edições

  Esporte 

 
Xeque-Mate
A concentração proporcionada pelo xadrez pode ser a solução de estudantes-problema
Por Douglas Luan
Érick Henrique Fularo, de 14 anos era um aluno problemático. As notas do seu boletim eram péssimas e o seu comportamento na Escola Municipal de Ensino Fundamental República de Portugal, no Parque Bitaru, em São Vicente, causava preocupação. Érick também tinha problemas com os pais e, por causa deste histórico, quase foi expulso do colégio duas vezes. Estava para repetir o 7° ano quando houve uma reviravolta em sua vida.

Suas notas não chegaram à máxima, mas foram o suficiente para fazê-lo ingressar no 8° ano. Ele se tornou um aluno exemplar, não quer mais sair da escola e é até considerado o “queridinho” da diretora. Tudo isso aconteceu graças ao esporte. Engana-se quem pensa que foi o futebol. Essa mudança foi causada por causa do xadrez. Isto mesmo. O problemático aluno se tornou enxadrista.

A responsável por isto foi a sua professora de matemática, Sandra Eliana Ribeiro. De acordo com ela, o xadrez pode transformar a vida escolar de um estudante. “O aluno que tem dificuldade acaba se superando”, afirma, olhando para os tabuleiros que usa nas suas aulas. “Por mais que não levem uma nota dez eles acabam se encantando pelo conteúdo”, explica. E foi exatamente o que aconteceu com o ex-aluno-problema Érick

O aluno se define, antes do xadrez, como um estudante um pouco problemático. “Era bagunceiro, mas quando queria era inteligente também”. Sandra afirma que a inteligência era ocultada pela falta de atenção. “Era muito difícil fazer o Érick se concentrar. Por qualquer coisa já começava a gritar. O jovem diz que começou a jogar xadrez durante uma das aulas de Sandra. ”Achei diferente. Nunca tinha visto uma professora usar o que ela usa na aula. Isso me chamou a atenção”. E daí para frente só ocorreram coisas positivas. “Comecei a levar as aulas mais a sério por causa do jogo. Me ajudou a prestar mais atenção no que a professora estava falando e no conteúdo”.

Até os pais do jovem entraram no embalo do filho. “Eles ficaram maravilhados quando me viram jogando com tanta facilidade. Acho que eles não acreditavam que eu poderia fazer aquilo. Também ensinei meus primos a jogar, mas por enquanto eu só ganho deles”, diz.

O segredo para a melhora de Érick está num ponto fundamental do xadrez: a concentração que o esporte exige. Quanto mais estimulada, mais aguçada fica, o que ajuda jovens com dificuldades, principalmente em matérias que envolvem números, como a matemática, por exemplo, se superarem. “Todos os alunos que chegam com esta condição conseguem se superar, só depende deles mesmos. Por mais que eles não levem uma nota dez, acabam se encantando com o conteúdo”, explica a professora Sandra.

Ela começou a usar esta técnica em sala de aula há cinco anos, depois de participar de cursos de aperfeiçoamento em São Paulo. Os primeiros alunos que trabalharam com ela foram de uma escola pública de Praia Grande. Dois anos depois ela chegou ao República de Portugal, onde encontrou alunos considerados problemas pela direção da unidade. “As dificuldades estão na atitude, e o jogo é uma atitude”, relata a professora, que afirma: “nem todos jogam um xadrez maravilhoso, mas o foto de estimular estes jovens a raciocinar já é um grande auxílio. Trabalhar com os jogos requer paciência e perspectiva”.

Procedimento - O material é desenvolvido pelos próprios alunos, que trazem de casa caixas de papel, tampinhas de garrafa e até de remédio. Durante todo o ano, diversas competições acontecem na escola com o intuito de estimular o aprendizado. “O jogo é inteligente estimula o raciocínio, a criatividade, e o próprio jogador é que cria sua estratégia. Por isso é preciso entender o que é feito”.

Além do xadrez, Sandra usa outros jogos nas aulas, alguns até criados por ela para estimular os alunos a pensar e a resolver as continhas de matemática. Dominó, quebra-cabeça, damas, jogo de frações, sudoku, desafios, tangram e bingo da tabuada fazem parte do repertório.

Mas se engana quem pensa que as aulas de Sandra se resumem somente a jogos. “A maioria das aulas são teóricas. Não podemos ficar sempre no jogo, pois perdemos o foco”, conta. Mesmo assim, ela percebe que os estudantes voltaram a ter gosto em relação ao estudo. “Não foi só em matemática que eles melhoraram. As professoras de outras disciplinas me procuram e comentam as evoluções nos últimos tempos. Na minha sala, em média, 70% das crianças que tinham alguma dificuldade conseguiram melhorar o desempenho”.

Uma das alunas que melhoraram o desempenho após participar dos jogos da professora Sandra foi Gabriela Teixeira de Lima, de 13 anos. A aluna do República de Portugal nunca foi ruim na escola, mas tinham certa dificuldade quando o assunto era matemática. “Era um terror ver todas aquelas continhas na lousa. Sempre consegui passar, mas minhas notas nunca foram maiores que sete”, lembra a estudante do 8° ano.

Depois que Gabriela entrou na “roda dos jogos” ela nunca mais quis sair. “Aprendi a gostar através das brincadeiras. É bom aprender os números deste jeito. Isto envolve raciocínio e sinto que mexe com o meu corpo inteiro”. Agora, o medo das continhas já diminuiu bastante. “Confesso que ainda dou uma tremidinha ao ver aquelas equações na lousa, mas me sinto mais segura”, afirma.