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| Com 35 anos de carreira — 33 deles no Santos — o experiente médico Carlos Braga fala sobre as nuances da medicina esportiva, e, a todo instante, deixa o alerta: somente um médico do esporte tem real capacidade de lidar com um esportista |
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| Por Lincoln Chaves |
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Fotos: Lincoln Chaves
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No futebol atual, chama a atenção o curto espaço de tempo que atletas, técnicos ou membros de comissões técnicas ficam em um mesmo clube. Para se ter uma idéia, se o treinador do Santos Futebol Clube nos anos 60, Lula, permaneceu 10 anos na Vila Belmiro, hoje, é Muricy Ramalho, comandante do São Paulo Futebol Clube, há quase dois anos e meio no Tricolor Paulista, o técnico que está a mais tempo em uma equipe brasileira.
Por isso, alguém que mesmo com essa rotina, esteja há 33 de seus 35 anos de carreira trabalhando em um mesmo clube, merece um destaque especial. E nesse perfil, encaixa-se o experiente médico do Santos, Carlos Alberto Gouvêa Braga.
A raiz branca dos cabelos e a voz já um pouco rouca evidenciam a experiência do profissional, de 51 anos. O sotaque não esconde: é nordestino, pernambucano, recifense. Por suas mãos, que a todo instante gesticulam de cima para baixo, passaram atletas de diferentes gerações, de Clodoaldo e Ramos Delgado, no início dos anos 70, a Robinho e Diego, campeões brasileiros e vice-campeões da América, no princípio deste século, passando por Cláudio Adão, ex-atleta da seleção brasileira a quem Braga recuperou de uma grave lesão no tornozelo, permitindo ao atleta jogar até impensáveis 48 anos.
Mesmo já tendo tratado alguns dos maiores ¡dolos e mais caros jogadores santistas, seguir fazendo parte da comissão técnica alvinegra por tantos anos e já ter até trabalhado na milionária seleção do Catar, entre 1987 e 1988, é um cara simples, dono de um jeito bem “boleiro” de se relacionar: brincalhão, papeador.
Não foi fácil parar Braga. Afinal, a correria de um Santos em plena disputa de duas competições simultâneas, aliada aos trabalhos em sua clínica de ortopedia, na Avenida Bernardino de Campos, via que fica logo à frente da Vila Belmiro, fizeram com que mais de uma semana de incessante procura fosse necessária para enfim ContaTo poder conversar com o médico alvinegro.
Ainda assim, estava a poucas horas de embarcar para Belo Horizonte, com a comissão técnica santista, para mais um confronto do Campeonato Brasileiro. Mas o sorridente doutor não negou atenção à reportagem, respondendo a todas as perguntas com tranqüilidade, sem pressa, mas em alto e bom tom.
Como um verdadeiro nordestino, é firme em suas afirmações, quando, por exemplo, defende a medicina esportiva, e, mais especificamente, a do futebol, como algo que transcende a lógica das ciências médicas usuais ou quando afirma que não é qualquer doutor que consegue tomar as rédeas de uma equipe.
Revista ConTato: Como o senhor avalia a qualidade atual da medicina voltada ao esporte no Brasil?
Carlos Braga: Uma evolução rápida, uma avaliação e uma validade muito boa perante o mundo. Felizmente, a medicina esportiva talvez tenha sido a que mais evoluiu nos últimos anos. E o próprio prestígio dessa medicina se espalhou, a ponto de sermos pioneiros na reabilitação de diversos jogadores, mesmo de fora, sempre com recuperações rápidas.
RC: Como está essa evolução?
CB: Para se ter uma idéia, estamos aptos a realizar qualquer atividade científica que europeus e americanos fazem. Infelizmente, a diferença é que as camadas mais pobres, até mesmo a classe média, não têm um contato mais próximo com essa tecnologia. Ela só existe com pacientes de um nível financeiro mais elevado. Não foi introduzida ainda para as classes mais necessitadas, que não têm dinheiro para terem essas novidades à disposição.
RC: Por que isso ocorre?
CB: Normalmente, o material para esses trabalhos é importado, e o custo operacional para os hospitais é grande, então o valor cobrado também é elevado. A classe média e a pobre não conseguem acompanhar esse tipo de coisa, infelizmente. Acredito que em uns 20 anos, possa haver uma integração maior, mas, no momento, não é possível.
RC: E quanto ao espaço que a mídia dá à medicina esportiva?
CB: A divulgação ainda é pouca. A imprensa só repassa o que alguns médicos dos clubes importantes falam, mas a medicina esportiva é muito mais do que isso. Ela se encontra dentro de toda uma tecnologia, aprofundada na Escola Paulista de Medicina Unifesp, na USP e no Hospital do Coração. Até porque hoje, para se formar médicos do esporte, são necessários os dois anos de residência em uma escola especializada em medicina esportiva, tal como há para outras especialidades.
RC: Com o crescimento das instituições esportivas, a posição do médico em seus clubes e locais de trabalho teve um grande aumento de importância. Dentro dessa evolução, qual a análise do senhor a respeito do mercado de trabalho para medicina esportiva?
CB: O mercado, infelizmente, não é seletivo. Tudo precisa ser feito através de uma seleção de recursos e aprendizado do profissional especializado. Hoje em dia, a indicação de um médico é o fator preponderante para sua contratação, e não sua capacidade ou tempo de habilitação desse médico perante aos jogadores, perante atletas que valem 40, 50 milhões de dólares. Você precisa colocar um médico bem preparado para que ao menos os diagnósticos das lesões possam ser dados, de forma preventiva. Infelizmente, alguns médicos que atuam hoje na área não têm condições de participar de atividades como essas.
RC: Quem trabalha com a medicina esportiva, como por exemplo, na sua área, a do futebol, não pode ficar restrito a analisar e dar o resultado. Deve também ser meio que um psicólogo de seus pacientes, de forma até a incentivá-los no tratamento. Como é esse trabalho?
CB: O futebol é um esporte que foge a qualquer trabalho psicológico que você possa imaginar. O jogador é um atleta a parte. Você precisa ser um profissional experiente, para que esse jogador possa confiar em você, conversar sobre o que ele tem. E o médico tem a responsabilidade de manter isso apenas entre os dois. Por isso digo que não é qualquer professor ou doutor que pode tomar conta de uma equipe. Eles podem ter um conhecimento teórico muito grande, mas, na prática, é outra história. É aí que entra a capacitação de um médico do esporte, no que diz respeito a orientar e ouvir o atleta.
RC: Você entrou no Santos em 1973, e lá está até hoje. De lá para cá, dê um panorama de como funcionava o trabalho do médico naquela época, relacionando com os dias de hoje.
CB: Veja bem, naquela época, tínhamos um time de primeiro mundo. Sou da época do Cejas goleiro, Carlos Alberto lateral-direito, Ramos Delgado zagueiro, Clodoaldo meio-campo... Não tínhamos tantas lesões como hoje, mas também não tínhamos tanta aparelhagem para diagnóstico como atualmente. Antes, o resultado era dado através de um exame clínico, e tratávamos os jogadores com toalhas quentes e bolsas de gelo. Era mais artesanal, mas o resultado era bom. Já operei jogadores com perigosas lesões de ligamento, e nenhum deles parou. Sempre dou como exemplo o Cláudio Adão, que teve um sério problema de fratura exposta no tornozelo, e, depois de recuperado, jogou até os 48 anos, passando até pela seleção brasileira. Hoje, mesmo com toda a aparelhagem, cabe a nós, médicos, dar o diagnóstico. Não podemos deixar a máquina passar por cima de nós, até porque, como já disse, com relação ao jogador de futebol, por exemplo, o que a ciência diz nem sempre é o verdadeiro.
RC: Hoje, o esporte, de uma forma geral, e no futebol, por exemplo, muito se fala na necessidade da força física. Trabalha-se desde cedo com o atleta para que ele ganhe logo massa muscular. Como esse trabalho está sendo feito?
CB: Hoje, os grandes clubes têm um grande conjunto de assistência médica. Através de toda uma aparelhagem, pode-se dar um diagnóstico sobre os atletas em alguns minutos, analisando-se gráficos e resultados. Com isso, os jogadores que tiveram algum desempenho mais preocupante, como, por exemplo, com um nível de gordura baixo, com pouca força, através da nutrição, da preparação física e da fisioterapia, pode-se agilizar o fortalecimento precoce do atleta, sem uso de anabolizantes ou corticóides.
RC: Jogadores como Ronaldo e Zico sofreram muito na carreira com lesões. Acredita que houve um trabalho errado no ganho de massa muscular?
CB: Olha, é complicado. Alguns falam que tudo foi causa de anabolizantes, o que não é verdade. A medicina esportiva está muito evoluída para isso, e tem outra coisa: o exame antidoping fora do País é muito rigoroso. Então, são casos que se deve tomar cuidado para analisar. Creio que possa ter ocorrido um excesso de exercícios para fortalecimento de algum músculo, levando à lesão degenerativa. Essa hipertrofia muscular ocorre quando que se quer ganhar massa e força, mas, muitas vezes, não se ganha força, só massa.
RC: Outro caso é o do Gustavo Kuerten, o Guga, que também encerrou sua carreira devido às lesões que atrapalharam seu desempenho. Pode-se concluir que a carga óssea dele não agüentou o trabalho físico realizado com ele?
CB: Com toda a certeza. As lesões dele ocorreram por movimentos súbitos de rotação e de parada súbita, reforçadas principalmente pelo fato dele jogar no saibro, onde há aquele deslizamento na areia. É quando ocorre o deslocamento do fêmur maior osso do corpo humano, que pode causar esse tipo de lesão e que o levou a ser operado nos Estados Unidos.
RC: Como funciona a relação com os grupos com os quais você trabalha, sendo que, hoje, estes são bastante cíclicos?
CB: Não é uma relação difícil. Porque sua capacitação é exposta aos atletas por comentários daqueles que já saíram. Normalmente, eles falam ‘vai ao doutor Fulano de Tal que ele é bom e tal’. Isso causa um grau de amizade e confiança muito grande.
RC: Você teve, por duas temporadas, a experiência de trabalhar na seleção do Catar, com o técnico Cabralzinho. No que diferenciava o perfil dos atletas de lá ao dos jogadores brasileiros? Deu para aprender algo por lá?
CB: Olha, lá no Catar, não há o mínimo senso de responsabilidade no sentido profissional. Lá não tinha nem ficha médica dos atletas. Era realmente muito amador. E olha que se tratava de uma seleção rica. Quando viajamos para a Itália, os jogadores iam aos shoppings para comprar comida, ou seja, sem o menor senso de responsabilidade Apesar isso, quando pedíamos algum material, vinha imediatamente.
RC: E com relação ao atleta profissional, em comparação àquele de final de semana. Quando há o tratamento, quais as diferenças nas reações entre os pacientes?
CB: O atleta profissional tem tudo à mão, com um atendimento exclusivo de fisioterapeuta, local para comer e dormir. O amador, por sua vez, tem até certa dificuldade financeira. Muitas vezes, você programa um trabalho específico, mas que ele não tem condições financeiras de fazer. Daí é necessário fazer uma análise, um estudo, para ver o que ele poderia fazer. Além disso, o amador, normalmente, não faz o que é mandado, e já quer voltar a praticar o esporte em um, dois dias. Quando ele nota que precisa parar de novo, a lesão já se agravou.
Ficha Técnica:
Nome: Carlos Alberto Gouvêa Braga
Nascimento: 21/12/1949, em Recife PE
Equipes por onde passou: Santos 1973 a 1986, Seleção do Catar 1987-1988, Santos 1989 até hoje
Especialização: medicina esportiva, com ênfase em ortopedia.
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