| |
Home
Sobre
Equipe
Email
Edições
|
|
Inclusão Social
| |
| Vila dos Pescadores: lixo em vez de peixe
|
 |
| Vasos sanitários, sofás e outros movéis velhos formam uma nova paisagem do mangue na região da Vila dos Pescadores |
 |
| Por Camila Ornelas |
|
|
 |
O pescador Severino José da Silva tem 64 anos e mora na Vila dos Pescadores, em Cubatão há 40. Quando ele lança a rede, em vez de peixe acaba pescando o lixo jogado no Rio Casqueiro. “Antes, a gente conseguia o alimento rapidamente. Hoje, temos de passar várias horas na maré, às vezes até mais de doze horas, mesmo assim é muito difícil encontrar o pescado, pois o lixo está em toda a parte”, reclama.
A Vila dos Pescadores tem uma população de 9.873 habitantes que moram em palafitas. Vasos sanitários, ventiladores, brinquedos, sofás e outros móveis e objetos velhos compõem a paisagem do mangue dessa região. O caminhão do lixo não passa na comunidade. “As pessoas acabam jogando na maré porque não tem como o caminhão passar por cima das pontes de madeira. Se isso aqui tudo fosse aterrado, melhoraria muito a nossa situação, mas tudo aqui está esquecido”, diz o pescador Silva.
De acordo com ele, a falta de tratamento de esgoto agrava ainda mais a situação. A sua casa e de todos os outros moradores fica numa área invadida, que foi aterrada. A casa de Silva tem banheiro, mas a falta de saneamento básico preocupa. Recentemente, o pescador fez uma tubulação para que todo o lixo e esgoto sejam despejados no Rio Casqueiro: “Fui obrigado a comprar seis canos de plásticos para improvisar a saída do esgoto”.
Um censo feito pelo Instituto de Pesquisas A Tribuna — cujo objetivo é documentar o pedido da Prefeitura de Cubatão de financiamento habitacional de US 30 milhões junto ao Banco Mundial, que se somarão a mais US 15 milhões da própria Prefeitura — constatou que 38% das famílias residentes nos 3.043 imóveis da Vila dos Pescadores têm renda mensal inferior a um salário mínimo. De acordo com o levantamento, pouco mais da metade dos 9.873 moradores da área sequer concluiu o Ensino Fundamental. Dos chefes de família residentes na comunidade, 20,8% estão desempregados — alguns há mais de dez anos — e 44,5% deles não recebem qualquer tipo de auxílio.
O morador Marcos Pinheiro da Silva, de 26 anos, é um dos que estão desempregados. Ele é casado, tem três filhas, de 4, 9 e 12 anos, e consegue se manter catando ferro na maré. “Por dia, consigo em torno de R 3,00 a R 15,00, dependendo do que encontro. Corro muito risco fazendo isso, pois a maré está contaminada. Posso pisar em um rato podre ou me cortar. Mesmo com os dois braços fraturados e soldados com platina, tenho de submeter a isso, pois não consigo emprego”, conta.
Segundo Pinheiro da Silva, na época da administração Nei Serra 1985-1992/1997-2000, a situação da Vila dos Pescadores era diferente. Os moradores recolhiam o lixo em sacos plásticos e ganhavam dinheiro com isso. “Antigamente, os moradores juntavam o lixo em troca de dinheiro e de cesta básica. Hoje, a fila para conseguir a cesta é enorme”, reclama.
Para a dona de casa Maria José dos Santos, de 38 anos e moradora da vila há 30, existiria uma forma de pelo menos amenizar a situação da poluição do mangue. “As autoridades deveriam resolver isso logo. É só dar uma quantia em dinheiro para as pessoas que se disponibilizarem a retirar o lixo do mangue. Com certeza, não faltaria dinheiro para ninguém e diminuiria a poluição”.
Os moradores da Vila dos Pescadores reclamam também do perigo. Maria Vanuza dos Santos, de 31 anos, diz que viver nas palafitas é inseguro demais. Com um filho recém-nascido, ela tem de se equilibrar sobre as tábuas que cortam o mangue. “Tem vezes que o caminho está com as tábuas quebradas e é muito perigoso demais passar aqui”, diz. Ela conta um caso grave que ocorreu próximo ao seu barraco. “O filho da minha vizinha estava brincando em cima das palafitas, caiu na maré e quase morreu afogado”.
A Prefeitura de Cubatão foi questionada a respeito da situação da Vila dos Pescadores, mas não deu resposta.
Colares, brincos e pulseiras
Folhas de revista, garrafas pet, cartelas de ovos e caroços de abacate. O que para muitos não serve para nada, tem um grande valor para Kátia Pinheiro da Silva, de 24 anos. Moradora da Vila dos Pescadores desde que nasceu, aprendeu em um curso de artesanato como transformar o lixo em arte.
Desempregada há mais de um ano, viúva e com dois filhos, uma menina de 8 anos e um menino de 6, Kátia se anima ao conseguir juntar esse material que representa a sua arte e motivação. “Hoje, o lixo para mim é uma riqueza. Até meus filhos me trazem garrafas pet”, conta. Ela passa o dia criando e montando colares, brincos, pulseiras e porta-bijuteria de material reciclável. Garrafas pet de cor verde e roxa se transformam em gargantilhas e folhas de revista em colares. A produção do artesanato ainda é pequena, mas o objetivo de Kátia é começar a expor as peças e fazer da reciclagem um meio de sustento. “Além de fazer com prazer, contribuo para o bem-estar do meio ambiente. Faço o que eu posso”, diz.
A casa onde Kátia mora fica sobre o mangue. É um local pequeno, com um quarto, sala, banheiro, cozinha e uma varanda. Todo o material que ela consegue é na reciclagem de lixo, exposto na rua ou em locais próximos a sua moradia. Ela aprendeu a fazer jóias artesanais na oficina de um mês que a professora Valdirene Alves ofereceu aos moradores da comunidade.
TCC 2007 orientado por Márcio Calafiori
|
|
|
|
|
|