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Crônica
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| Presença felina
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| Dois olhos brilhantes, bigodes reluzentes, ele surge quando menos se espera |
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| Por Valéria Polizzi |
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Na biblioteca*, sentado no balcão da entrada, com pose de recepcionista, o gato observa o movimento: universitários a entrar pela catraca, o trabalho das moças no atendimento, a consulta no terminal de computadores. Mais um pouco e é hora da ronda pelas estantes. E o mascote caminha entre os livros com seu andar lânguido de pantera. Sorrateiro, se esconde em uma das prateleiras e, silencioso, aguarda. Até que, algum desavisado, ao retirar um volume, dá de cara com dois olhos brilhantes e longos bigodes de nylon. Quando consegue arrancar, da vítima, um grito assustado, então, há quem jure que o felino sorri de satisfação.
Mais um passeio. Dono do recinto, ele caminha entre pernas e cadeiras. De quando em quando, se enrosca num tornozelo, as costas arqueadas a comichar. E se quer companhia, não faz cerimônia. De um pulo está sobre uma mesa, onde concentrado, estuda algum aluno. Ao lado do livro ele se estica. É todo insinuação. Até que, vencida, a presa lhe estende os dedos a lhe acariciar a barriga.
Impossível resistir aos negros pêlos brilhantes, bem tratados com horas de banho à língua. E completamente entregue, aos afagos mansos, como só os animais sabem se entregar, o bichano se delicia com o toque humano e, misterioso, vai treinando seu dono, a dar e receber.
Engana-se, no entanto, quem crê que ele seja só preguiça. Um olhar mais a fundo, em sua íris verde água e se descobre que esse gatuno conhece Kafka, sabe de cor todos os verbetes do dicionário e aprecia poesia moderna. Quem precisa de botas em meio a tantos livros para ser levado tão longe?
Com as edições técnicas, não tem paciência. Gosta mesmo é de literatura. Discute filosofia com Platão, conhece a historia do povo brasileiro por Darcy Ribeiro, e quando o assunto é educação, prefere Roberto Freire. Não perde muito tempo com jornais e revistas, pois sabe que esses vem e vão, em dias, semanas, no máximo meses. Para sempre, tem convicção que, só permanecem os livros. Passa horas nas estantes da direita, jornalismo literário. Mas o ápice de seu deleite fica ali, mais para a esquerda, onde volumes amarelados ocultam Tchekhov, Machado de Assis, Clarisse Lispector, Cecília Meireles... Ah, com tão boa companhia, sem anos de solidão.
Mas nem só de intelectualidade vive o gato, que também tem seu lado animal. A propósito, é ela. Uma gata. E nas noites de cio, deixa a biblioteca para as ruas e com seu canto feminino clama por companhia. E depois de uma noite bem acordada, intenso prazer, volta para seu aconchego. Nas manhãs frias se aninha nas folhas quentes de um jornal e, sobre o emaranhado de letras e palavras, sonha profundo. Nos dias abafados, entretanto, prefere a lisura refrescante das revistas e se esparrama pelas fotos coloridas.
Ao cair da tarde desperta preguiçosa. E enquanto o movimento é fraco, as recepcionistas lhe enchem de mimos. Mas quando os estudantes começam a chegar, ela volta a seu posto, estrategicamente sentada sobre o balcão, feito peça de arte. E com seu porte de rainha controla o movimento. Estudantes param para apreciá-la. Coçam-lhe a cabeça com afeto. E ela pisca lentamente os olhos claros, fazendo charme, modesta. Afinal, eles vêem buscar o que ela já sabe.
*Biblioteca do Bloco M da Universidade Santa Cecília
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