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| A infância sumiu?
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| Os conceitos formados sobre as crianças têm mudado desde o aparecimento da mídia eletrônica. A pergunta é: a infância sumiu? |
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| Por Colaborador |
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Tensão. Mãos suando frio. Coração batendo forte. E logo o esperado:
— Você quer namorar comigo?
O início da vida amorosa e sexual traz angústia a qualquer jovem. E com Natalie da Silva não foi diferente. Após perder o nervosismo e aceitar o pedido do colega, pegou em sua mão e foi para trás de um muro. Ali, finalmente, aconteceu o primeiro beijo. Nada de anormal, se essa história não tratasse de uma garota de 4 anos. A mãe percebeu a ausência da filha e encontrou-a com o garoto, também de 4. Ela perdeu o controle e deu um tapa na filha: “Eu não sei como tive essa reação, mas depois conversei com ela”, disse, preocupada.
A infância sempre foi motivo de nostalgia entre os adultos, que parecem viver em busca da inocência perdida. A sexualidade antecipada entre crianças e jovens tem preocupado pais e especialistas. A intenção é descobrir até que ponto as etapas de vida, para ter um crescimento saudável, vêm sendo esquecidas, prejudicando o psicológico das crianças de hoje. Mas será que ainda existe infância?
Para o professor de Teoria de Comunicação das Universidades Santa Cecília e Católica de Santos, André Rittes, já não existe mais infância. Segundo ele, esse conceito some quando aparece a mídia eletrônica: “Uma criança de 3, 4 anos, já ficou exposta a cinco mil horas de imagens da televisão e nesse momento ela passa a estar exposta a tudo o que os adultos estão expostos também”, explica.
De acordo com Rittes, na Idade Média as crianças eram pessoas “normais” que podiam encarar as mesmas situações dos adultos. A moral, formada a partir da cultura letrada, fez com que as crianças começassem a ter um tratamento diferenciado. De acordo com o professor, não existe estudo de correlação que comprove a existência da influência da mídia sobre a criança. “A idéia de pensar que as crianças são frágeis é frankfurtiana”, diz referindo-se à Escola de Frankfurt — grupo de filósofos e cientistas sociais que a partir de 1920, na Alemanha, criou conceitos como indústria cultural e cultura de massa.
O caso de Natalie da Silva é algo que vem ocorrendo com freqüência. Ao ser indagada sobre como ela teria aprendido, a avó Maria Cícera da Silva diz que a culpa é da TV: “A televisão é a professora. Depois do que aconteceu, só a deixo ver desenhos”.
A demanda por programação de TV hoje ultrapassa as 300 mil horas anuais de imagens e faz movimentar recursos próximos a 1/5 do PIB nacional, segundo o "Diagnóstico governamental da cadeia produtiva do audiovisual", documento publicado pelo Ministério da Cultura.
Outras razões
Para o educador social, Victor Azenha Ferreira, as crianças passam por uma grande falta de perspectiva e isso aumenta nas classes mais pobres. Ele acredita que as crianças acabam perdendo a noção e tratam a sexualidade como algo banal. “Já atendi a filhos de mulheres que usam o sexo como única fonte de renda. As mães chegam a atender clientes dentro da própria casa. Como fica a cabeça de uma criança que passa por situações assim?”, questiona.
O educador diz que além da sexualidade precoce, para adequar-se ao perfil muitos adolescentes praticam o sexo por pressão, modismo e falta de ambição sobre o futuro. Para a psicóloga Fabiana Pereira Moreira Santos, esse comportamento pode trazer experiências não-prazerosas, pois dificilmente o jovem e a criança estão preparados psicologicamente e fisicamente para iniciar a vida sexual. Isso traz dificuldades em relacionamentos futuros e traumas, além do risco de doenças e gravidez não-desejada.
Para a psicóloga, o acesso à informação é usado de modo errado, resultando na comercialização e na banalização do amor e do sexo. O estudante Thiago Rafael da Silva e Jeferson Santana, ambos de 9 anos, juram que já tiveram mais de três namoradas e que na escola deles é natural pedir para “ficar” com as garotas. Ao responder sobre sexo, Jeferson fica envergonhado, mas diz que já viu a namorada nua.
Prevenção
A mais abrangente pesquisa sobre juventude e sexualidade já realizada no País, lançada no ano passado pela Unesco, revela um retrato atual do brasileiro e aponta que muitos não se protegem contra as Doenças Sexualmente Transmissíveis DST e a Aids. A pesquisa fala também sobre os caminhos para que pais, escola, governo e sociedade civil adotem medidas adequadas de promoção da juventude, ajudando no desenvolvimento e na redução dos riscos aos quais estão sujeitos.
Se depender da televisão, porém, as perspectivas são sombrias. André Rittes diz que os modelos televisivos infantis também não são os mais adequados e não devem servir de exemplo para as crianças, principalmente a Xuxa, já tão envolvida na mídia por meio de escândalos de sua vida pessoal.
O professor diz que censura o que o filho de 5 anos vê na televisão: “Com esses tipos de programas na TV e na própria Internet não há como controlar, mas meu filho entende quando explico. É preciso ensinar os jovens para que eles possam ter autonomia para diferenciar o que é bom e do que é ruim”.
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