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Do rio para a cooperativa
Transformando a casca de camarão em renda
Por Valquiria Ginatto
Em frente à pequena porta, uma escada leva a uma ampla sala de piso frio, onde fica a extensa mesa de jantar, com bancos dos dois lados. Ao redor da mesa, os pescadores Daniel, Marcelo e Isaque conversam com Adalgiza. O assunto discutido na casa de Daniel é o projeto da cooperativa que vai transformar em produto aproveitável as cascas de camarão jogadas no rio do Peixe, na praia do Perequê, no Guarujá.

O programa faz parte do projeto Rumo Certo — desenvolvido pela Petrobras, em parceria com a Universidade de Ribeirão Preto Unaerp/Campus Guarujá — e pretende capacitar dez pescadores do Perequê para formar uma cooperativa. Para isso, eles terão noções básicas de Direito, Marketing, Biologia, Administração e Contabilidade.

O pescador de camarão Marcelo Almeida, de 28 anos, gesticula animado. Seus olhos brilham e o tom de voz é forte e seguro: “A visão pequena que eu tinha da vida deu um giro de 180 graus. É uma oportunidade única: um menino pobre que estudou até a 4ª série, hoje, assistir aulas de Direito e Marketing”.

Empolgado com a oportunidade de melhorar a renda e de crescer, Marcelo ajuda Adalgiza a convencer os pescadores Daniel Borges e Isaque — ambos donos de uma salga, locais onde são descascados os camarões — a se associarem à futura cooperativa, que quer transformar as cascas de camarão em farinha, ração para peixe e adubo. Isso possibilitará o aumento de renda das famílias da comunidade e dar trabalho aos meninos de rua — que para cuidar dos rejeitos nas salgas receberão um salário mínimo 350 reais.

Outros resultados esperados com a implantação da cooperativa são a recuperação das águas do rio do Peixe e a melhoria das condições sanitárias da praia do Perequê. No período alto da pesca, as salgas despejam cerca de quatro toneladas de casca de camarão no rio do Peixe. O robalo e o parati são peixes que não se encontram mais. Adalgiza, que mora no bairro há 27 anos, explica: “Quando a maré baixa, o cheiro é insuportável, não dá pra abrir a janela”.

Daniel acusa o condomínio de alto padrão Acapulco — que fica na praia de Pernambuco — de despejar o esgoto no rio: “Não são as cascas que estão matando os peixes”, retruca ele, ainda não convencido de que a cooperativa vai dar certo.

Com tudo o que aprendeu no curso de capacitação, Adalgiza explica pacientemente que a casca é usada para vários fins: ”Até a Nasa faz uso do óleo de camarão”.

Com esperança de convencer o maior número possível de pescadores de que a cooperativa é viável, ela sai em busca de apoio para o projeto entre sua comunidade.

Adalgiza visita os salgueiros e sugere que assim que conseguirem parceiros para bancar o projeto e a cooperativa estiver pronta, as cascas sejam doadas.

Percebendo que o seu lixo pode lhe trazer mais lucro, Daniel diz que já ouviu dizer que tem pescadores que vendem as cacas por dois centavos o quilo. Visto que a quantidade de cascas que vão para o rio é de quatro toneladas, o lucro seria de 800 reais por semana. Ao final da conversa, Daniel parece mais convencido de que desta vez o negócio vai funcionar.

A comunidade

O nome vem do tupi-guarani, "Pira-Quê", local de entrada dos peixes para comer e desovar. O Perequê é uma praia de pescadores, com uma frota de mais de 200 embarcações de pesca espalhados próximos à costa. Os barcos começam o trabalho por volta das três horas da manhã e retornam em torno das 15 horas. Nos melhores períodos chegam a trazer 700 quilos de camarão por viagem. O produto é então repassado aos salgueiros que após limpo e descascado é vendido para toda a região. É comum, também, a chegada de canoas e barcos que descarregam sua produção na praia para abastecimento do próprio mercado de peixes, no local. Seus restaurantes, especializados em frutos do mar são muito visitados.

Turismo de pesca

Márcio Rodrigues é pescador artesanal no Perequê. Conhecedor das marés, leva turistas para pescar com linha. Eles embarcam às seis da manhã e voltam às 16 horas. “Como não temos uma estrutura de embarque, o turista embarca nos pequenos barcos que levam ao barco maior”, diz Rodrigues. A segurança é fator importante no programa: “O barqueiro deve estar habilitado para conduzir a embarcação e a Capitania dos Portos tem que dar o aval na vistoria do barco”.

O programa começou há 15 anos quando funcionários da Volkswagen pediam para os pescadores que os levassem para pescar. A novidade foi se espalhando e acabou se transformando num novo negócio. Para não sujar as praias, o peixe pescado pelo turista pode ser limpo, se ele quiser, por pessoas disponibilizadas para isso.

Um dia de pescaria custa em torno de 200 reais incluindo o piloteiro e o barco comporta seis pessoas. A estrutura ainda é meio rudimentar, mas com a construção do píer, que está prevista para iniciar em fevereiro de 2007, a expectativa é de crescimento no setor. Para Rodrigues o píer só vem a acrescentar: “O turismo vai aumentar, o pescador de camarão vai ter facilidade para descarregar o produto dele, o comerciante local vai vender mais porque sempre vai ter um turista que não vai embarcar. Só vai melhorar para todo mundo”.