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Inclusão Social
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| Vítimas da violência, crianças encontram abrigo em lar temporário
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| Desde 2005, o programa Família Acolhedora recebe crianças violentadas ou esquecidas. Conheça o projeto. |
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| Por Colaborador |
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Cuidar de filhos não é uma tarefa fácil. Imagine agora se estas crianças forem de outra pessoa. Com tudo isso, inclua mais um detalhe: de pais dependentes químicos ou agressivos. Ficou mais difícil? Mesmo assim, há famílias que decidem cuidar de crianças nessa situação.
Desde 2005, o programa recebe casos assim, de crianças que sofreram qualquer tipo de violência ou negligência dos pais, geralmente com problemas relacionados ao vício. A denúncia é feita para o Conselho Tutelar, que vai à casa em questão para verificar a veracidade do fato. Se confirmado, a criança é retirada dos pais e direcionada ao programa Família Acolhedora.
Para ser Acolhedora, a família tem que passar por um processo rigoroso: primeiro, uma avaliação, onde são questionados assuntos pessoais como, se há brigas dentro do lar. Se o casal tiver filhos estes também serão avaliados. Na segunda etapa, a família recebe a visita dos integrantes do programa. Na terceira, o cadastro é levado para o grupo gestor, que discute e analisa. É nesse processo que é decidido se a família foi ou não aprovada.
Depois disso, é feita a capacitação, processo em que se reúne um grupo com cinco famílias que já foram aprovadas, com a discussão de temas sobre o programa, preconceitos, crianças e a questão da guarda e a tutela. São feitas cinco reuniões, de três horas cada. Após esse processo, a família apresenta a documentação que é a mesma para a adoção. Após todo esse processo, essa família pode-se considerar Acolhedora.
Quando a família acolhe crianças, recebe 270 reais por cada uma. Além disso, tem que leva-las às reuniões e ao reencontro com a família original. Se por algum motivo, os pais de origem não cumprirem o cronograma do programa — que são os cursos de reabilitação e capacitação e as reuniões — eles perdem, por definitivo, a guarda dos filhos. Se isso acontecer, eles serão levados para a família que estão na fila da adoção, e não ficam com a família que os acolheu.
A Chefe de Cessão da Família Acolhedora, Maria Luiza Ferraz de Campos, diz que o programa tem como objetivo garantir que a criança conviva em um ambiente familiar, que está previsto no estatuto da Criança e do Adolescente. “Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.
Mas, hoje, esse programa está enfrentando um grande problema: a falta de família inscrita para acolher crianças. “Recebemos 33 solicitações do Conselho Tutelar. Porém, cada criança vem acompanhada de irmãos, o que aumenta o número. E se não tiver uma família para dar um lar a todos, eles terão que ser encaminhadas para um abrigo”, diz Maria Luiza.
A luta pela recuperação
Afastada dos quatro filhos há seis meses, Gencivana Arlinda da Silva Teixeira, de 28 anos, conta que perdeu a guarda das crianças por ser dependente química. Antes de perder a guarda, sua mãe e o padrasto foram morar com ela, na tentativa de ajudar no tratamento contra as drogas. “Mas, um dia tive uma recaída, e fiquei longe da minha casa durante um mês”, conta Gencivana. Quando decidiu voltar, foi mal recebida pela mãe, Arlinda Raquel da Silva, e pelos irmãos Jailson Rodrigues da Silva, de 26, e Elizangêla Raquel da Silva, de 23. Eles discutiram e Gencivana agrediu fisicamente a mãe e os irmãos, que também a agrediram.
O caso foi levado ao Conselho Tutelar. O juiz tirou a guarda de Gencivana e deixou com sua mãe temporariamente. A fim de ajudar na recuperação da moça e de não distanciar os filhos dela, o Programa Família Acolhedora recebeu o caso. Com isso, Gencivana é obrigada a freqüentar os cursos para dependentes químicos, que é pago pelo programa, e as reuniões, que são feitas na sede, com a presença dos filhos e de sua mãe, Arlinda. Lá, a Maria Luiza, Chefe da Sessão do programa, analisa o desenvolvimento de Gencivana. Nesse período de tratamento, a avó, Arlinda recebe 270 reais, a cada duas crianças, para ajudar com as despesas.
“Há quatro meses estou sem consumir nenhum tipo de drogas”, conta Gencivana. Ela luta para ter a guarda dos seus filhos de volta. Hoje, mora com um caminhoneiro. Gencivana diz que os filhos, Antoni, de 8 anos Carlos Eduardo, de 5, Gustavo, de 3, e Gabriel, de 10, se dão bem com ele, apesar dele não ser o pai. “Sempre peço para ter os meus filhos de volta, mas o programa não acha que estou preparada”, reclama.
Já Clarice da Silva Oliveira, de 45 anos, teve a experiência de ser uma Família Acolhedora. Casada com Luis Trajano de Oliveira, de 46, Clarice cuidou de três crianças. Ela conheceu o projeto através do marido, que trabalhava com Maria Luisa, chefe do programa. Clarice, que tem dois filhos e uma neta, adotou Tamires, de 3 anos, por quatro meses. Isso porque a mãe da menina decidiu melhorar para ter a guarda da filha de volta.
Quando Clarice decidiu acolher um casal de irmãos é que realmente soube a importância de dar amor a crianças que precisam. Ela ficou com eles durante onze meses. Everton chegou à casa dela com 39 dias de nascido e sua irmã, Evilin, com um ano e seis meses. A princípio, a menina não gostou muito de Clarice, mas depois foi se acostumando. Já para o bebê, foi mais fácil se habituar à nova família.
O casal de irmãos foi parar no programa através de uma denúncia ao Conselho Tutelar. Os pais eram usuários de drogas, não davam importância para os filhos e os deixavam sem medicamento. O primeiro a ser retirado foi o bebê, Everton. Depois a menina, que apareceu com uma queimadura.
Além de perder a guarda provisória, os pais não seguiram o cronograma. Quando compareciam às reuniões eram frios e distantes. Também não freqüentavam o centro de reabilitação. “A mãe era mais agressiva já o pai era o mais tranqüilo. Ele gostava muito da menina, mas não fazia nada para tê-la de volta”, diz Clarice.
Por não se mostrarem aptos a mudar de vida, as crianças foram tiradas definitivamente deles. Saíram da casa de Clarice para serem adotados por um casal, que já tem um filho. Ela ficou muito triste, pois estava muito apegada a eles. Então, Maria Luisa decidiu deixá-la afastada por um tempo do programa, até se conformar. “Eles me ensinaram a desenvolver a paciência e o amor pelo próximo. Agora estou pronta para cuidar de outra criança, novamente”, afirma.
A ajudante geral da Policlínica do Valongo, Leidjane Maria Candido da Silva, de 41 anos, tem outra história para contar. Ela cuida dos sobrinhos, filhos da irmã Ione Candido da Silva, de 31 anos. O motivo: a irmã é usuária de drogas há mais de 14 anos. O caso foi denunciado pelos vizinhos. Eles viam que Ione dormia durante o dia, e, pela noite, saia à procura de drogas. Algumas vezes, as crianças ficavam em um grupo, onde as pessoas estavam usando alguma substância ilegal. Ione tem quatro filhos: Gustavo, de 6 anos Indianara, de 8 Tamires, de 14, e Natália, de 11, criada por Leidjane desde o seu nascimento.
As crianças não iam regularmente à escola. Tamires deixou de freqüentar o colégio durante um ano para cuidar de seus irmãos. Com isso, o juiz decidiu, há três anos, dar as guardas das crianças para sua irmã. Foi então que ela conheceu o programa Família Acolhedora. Leidjane recebe hoje, 270 reais por cada duas crianças.
Apesar de fazer tratamento no Centro de Referência da Assistência Social, segundo a irmã, Ione não se esforça para melhorar. Não participa da vida dos filhos e está sempre fugindo deles. Além disso, ela é espancada pelo marido — pai de Gustavo e Indianara — e, constantemente, ameaçada por ele: “Ela não tem condições de estar com os filhos”. Leidjane é solteira e tem três filhos. Porém, só moram na casa os sobrinhos e sua filha de 19 anos, Liane Candido da Silva. “Procuro manter as crianças ocupadas para não perguntarem sobre a mãe”, diz.
“Penso em dar carinho e amor, tudo o que uma mãe dá para o filho”
Com 58 anos de idade, três filhos casados e um em casa, Irene Gazole decidiu ajudar uma criança, participando do Família Acolhedora. Há três meses ela está na expectativa para obter a guarda provisória de um menino. Ela diz que tomou a decisão por gostar de crianças, além de querer uma companhia para o filho João Manuel Gazole de Freitas, de 13 anos, adotivo desde que nasceu. A aposentada disse que o marido Iremar Almeida de Freitas, de 55 anos, apoiou-a na decisão.
“Juntamos o útil ao agradável. Faremos a nossa parte na sociedade e, com isso, a criança ajudará o nosso filho, João, a conviver com outro garoto e dividir suas coisas. Assim, ele terá espírito da solidariedade”, conta Irene, sobre um dos motivos para querer participar do programa.
A aposentada, que tem quatro netos, disse que no início foi difícil para o filho aceitar outra criança dentro de casa, mas agora não vê a hora de poder conhecer o seu novo companheiro. “Ele, inclusive, foi junto comigo para fazer a inscrição. Não sei como a criança vai vir, só penso em dar carinho e amor, tudo o que uma mãe dá para seu filho”, diz.
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