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Finalmente,
75 anos depois de criado, o Caderno de Croquis de Pagu, de Patrícia
Galvão, torna-se de conhecimento público. A obra, que só
teve uma pequena parte mostrada no vídeo-documentário Pagu,
Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo, de Lúcia
Teixeira Furlani, com direção de Rudá de Andrade
(filho de Pagu com Oswald de Andrade), será mostrada, em sua totalidade,
em exposições marcadas para os meses de abril e maio, em
uma iniciativa conjunta da Universidade Santa Cecília (UNISANTA)
e Museu da Imagem e do Som (MIS).
Além das exposições, será lançado um
livro abordando essa produção inédita de Pagu. Editado
pela UNISANTA e Cortez Editora, a obra tem o título de Caderno
de Croquis de Pagu e Outros Momentos Felizes que foram Devorados Reunidos.
Em Santos, a abertura da exposição e lançamento regional
do livro estão marcados para o dia 22, às 19h30, na UNISANTA,
à Rua Cesário Mota, 8, no Boqueirão. A exposição
prosseguirá até o dia 29 de abril. O MIS (Avenida Europa,
158, na Capital) será palco da exposição paulistana,
bem como do lançamento nacional do livro, com data marcada para
o dia 4 de maio, também às 19h30. Em São Paulo, a
exposição se estenderá até o dia 30 de maio.
A escritora Lúcia Teixeira Furlani, autora dos premiados livro
e vídeo-documentário sobre Pagu, é quem responde
pela realização da exposição, seleção
e organização do livro. Ambos têm a produção
de Rudá de Andrade e a consultoria de Leda Rita Cintra Ferraz.
Lúcia esclarece que Pagu, “mesmo sem ter desenvolvido uma
carreira artística, foi uma personalidade rara, rebelde e inovadora
na vida, na arte e na cultura, em todos esses domínios: jornalismo,
poesia, romance, desenho, crítica de artes, política militante,
dissidência política. Além de incentivadora da cultura,
foi mulher precursora”.
Conforme a escritora, o Caderno de Croquis de Pagu nos coloca diante de
sua produção de estréia, inédita e desconhecida.
Um trabalho desenvolvido em plena efervescência antropofágica,
na juventude de seus 18, 19 e 20 anos. |
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MULHER-MENINA - Nele,
observa-se uma mulher-menina, na exuberância de sua juventude
e vitalidade. Ela apresenta paisagens e cenários de São
Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Itanhaém, Bahia, Espírito
Santo, além de outros não identificados. A coleção
inclui ainda uma representação despojada de Jesus, Maria
e José.
“Dentro desta mulher, longe de condicionamentos e repressões
estéticas, literárias, sexuais, sociais e culturais, topamos
com a leveza dos traços, quase infantis, característicos
de uma Arte Moderna, que retratam a sensibilidade de sua alma”,
destaca Lúcia. “A paródia, encontraríamos
depois em seu Álbum de Pagu, também de 1929. Essas duas
produções têm como autora uma mulher-menina, integrada
na natureza, que solta papagaios, volta para casa sem batom e tem fome
de futuro”, exulta Lúcia.
Ambas produções pertencem ao mesmo período, no
qual Patrícia Galvão emerge no Modernismo brasileiro,
mais precisamente na Antropofagia, sob a influência de Oswald
de Andrade e Tarsila do Amaral. O “Álbum de Pagu –
Vida, Paixão e Morte”, a autora dedicou a Tarsila, em poder
de quem ele permaneceu por muitos anos, até que fosse descoberto.
O Álbum reúne “poemas ilustrados” em seqüência,
com 28 páginas numeradas (cada desenho ocupa uma página),
das quais 15 são apresentadas nesta exposição.
O trabalho de Pagu exibe uma linguagem atrevida para o seu tempo e até
hoje é pleno de provocação. Carregado de malícia
e sensualidade, integra poesia, prosa e legenda, com todo universo visual
moderno dos quadrinhos, dos anúncios, das charges e do cinema.
Lúcia enfatiza que, além do Álbum, “acrescentamos
outro testemunho das atividades de Pagu como desenhista e de forte admiração
que nutria por Tarsila: um bico-de-pena no qual retrata esta pintora,
e que ilustrou a entrevista concedida por Pagu à Revista Para
todos (03/08/1929). Partindo do auto-retrato de Tarsila, Pagu a desenha
em forma de quase caricatura, cheia de graça, destacando cabelos
– pestanas – boca – brincos”.
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Já o Caderno
reúne 22 desenhos, a maioria dos quais possui legendas do próprio
punho de Pagu; na capa, com papel timbrado da Antiga Casa Cavalier –
Desenho e Pintura- , já amarelado pelo tempo, o título
manuscrito por ela, tendo a indicação da data: agosto
de 1929.
A forte amizade com o casal Tarsiwaldo havia se iniciado em maio de
1929. Quando Pagu viaja para a Bahia (ocasião retratada em um
desses croquis), Oswald não resiste à saudade e vai ao
seu encontro. Ao voltar da viagem, separa-se definitivamente de Tarsila.
Esses desenhos surgem ao lado de acontecimentos promissores da existência
de Patrícia, na gestação de muitos projetos: o
início da vida com Oswald, de sua produção artística,
literária, jornalística, de sua militância política
e o nascimento de seu filho com Oswald, Rudá.
FOTOS - A exposição tem ainda algumas fotos de Patrícia,
que, conforme explicação de Lúcia, não têm
o intuito de representar todos os momentos de sua vida, “até
porque estamos nos referindo à parte de sua produção
de desenhos de estréia. Todas, porém, retratam uma vida
com disposição de navegar contra a corrente, munida de
condições raras: espírito de aventura, coragem,
perseverança e paixão, muita paixão”.
Duas dessas fotos Patrícia fez questão de legendar, brindando-nos
com seu espírito que desafia as convenções. Em
foto em que aparece de casaco de pele, de 1929, faz referência
à sua mãe: “Dª Adélia queria eu vestida”.
Na outra, em que posa ao lado de Oswald e o filho Rudá, de 1931,
parodia canção religiosa: “No céu, no céu,
com minha mãe estarei”.
Segundo Lúcia, a revelação desse Caderno, 75 anos
depois de ter sido elaborado, pode recuperar uma promessa quase perdida,
que ficou cuidadosamente embalada, acalentada no passado e que não
podemos deixar se perder, novamente esquecida. Transforma o passado,
porque este assume uma forma nova, que poderia ter desaparecido no esquecimento,
e pode transformar também o presente, se este se revelar a realização
possível daquilo que foi sonhado.
Com ele, mais uma das muitas facetas de Pagu vem à tona. Perseguida,
na clandestinidade, durante sua vida assinou seus trabalhos sob os mais
diferentes nomes. Embora no final da existência detestasse ser
chamada de Pagu, nome que parecia querer esquecer, é assim que
ela é, até hoje, mais conhecida e admirada.
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