Espaço Livre

O Brasil e a Vasilha                                                                                         voltar
Por Adelto Gonçalves


            O jornalista Fernando Pedreira, em seu artigo de despedida em O Estado de S.Paulo às vésperas do segundo turno das eleições de 2002, a propósito do quadro político que se afigurava, lembrou o que disse Eça de Queirós, em 1888, em carta ao seu amigo paulista Eduardo Prado: “Não desejo ser irrespeitoso, meu caro Prado, mas tenho a impressão de que o Brasil se decidiu pela vasilha”.

            Com isso, o escritor português queria dizer que o Brasil, às vésperas da República que viria por um golpe militar que nada teve de grandioso, mostrava-se um país auto-destrutivo, que sempre botava tudo a perder quando parecia rumar ao lugar certo. Em palavras modernas: o Brasil, em seus momentos mais decisivos, está sempre disposto a optar pelo atraso.

Não se pode dizer que o último período da monarquia de d. Pedro II era um exemplo de bom governo, mas a República que veio a seguir – mais pela má pontaria do Barão de Ladário que reagiu a tiros ao marechal Deodoro – sempre esteve longe dos sonhos dos velhos republicanos de 1870. Talvez seja a sina do País decidir-se pela vasilha.

Quem duvidar dessa sina – que mereceria um grande pensador que a decifrasse – que leia O dia em que Getúlio matou Allende, de Flávio Tavares, memórias, e Getúlio, de Juremir Machado da Silva, romance,  publicados a propósito da passagem de meio século do suicídio do presidente Vargas. Não vai achar a conclusão que faremos a seguir – talvez porque seus autores, antes de grandes jornalistas, sejam gaúchos e o regionalismo uma praga inextirpável –, mas encontrará decisivos argumentos para concluir que, em 1930, o Brasil optou mais uma vez pela vasilha.

Está bem, estamos cansados de ler que a Revolução de 30 (que tampouco foi revolução) deu-se contra a oligarquia paulista e a política do café-com-leite em que fazendeiros paulistas e mineiros se alternavam no poder. É como se os militares e potentados civis que se reuniram em torno de Vargas tivessem sido revolucionários, estivessem cansados do atraso em que a população então vegetava e carregassem o ideal de colocar o Brasil no rol das nações desenvolvidas. Deixemos de ser tontos: a Revolução de 30 foi a vitória de outra oligarquia. E pior: de uma oligarquia mais atrasada, sem o requinte cultural e a visão de mundo que tinha a oligarquia paulista.

Ou será que alguém ainda pensa que foi o acaso que transformou São Paulo no Estado mais industrializado do Brasil? Claro, foi o dinheiro do café que financiou a industrialização, ao lado do financiamento externo. Hoje é impossível saber, mas,  vitoriosa a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, é bem provável que o Brasil tivesse seguido rumos mais modernos. Só que o Brasil decidiu-se pela vasilha outra vez.

Por certo, hão de objetar que Vargas, em 1931, criou o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e promulgou a Lei da Sindicalização, em 1940, a lei do salário mínimo e, em 1943, a Consolidação das Lei do Trabalho. Certo, mas não teriam sido essas conquistas imposição dos tempos? Ou será que alguém imagina que, se não fosse o período varguista de 1930 a 1945, o Brasil continuaria a ser um país agrícola? Santa ingenuidade.

Quem ler com olhar crítico os livros de Tavares e Machado da Silva só pode concluir que o mar de lama que transbordou do Catete de 1951 a 1954, à luz da democracia, correu com mais intensidade de 1930 a 1945, ainda que devidamente escamoteado até 1937 e silenciado a partir do Estado Novo.

Vargas transplantou para o Catete o banditismo da fronteira, a política de vendeta dos caudilhos, governou para os amigos, fez “barões” na imprensa, como Assis Chateaubriand e Samuel Wainer, amordaçou jornais e jornalistas independentes, perseguiu adversários com mão-de-ferro, cooptou intelectuais, flertou com o fascismo e o nazismo, manipulou as massas e ainda produziu dois aprendizes de feiticeiro que, a rigor, involuntariamente, prepararam-nos o prato indigesto da ditadura militar de 1964 – Goulart e Brizola.

Por culpa desses homens, que sempre levaram em conta seus mesquinhos interesses pessoais, líderes operários sofreram o diabo no navio-prisão Raul Soares, jovens ingênuos largaram cursos universitários para se atirarem à aventura da guerrilha, muitos foram torturados e desapareceram na longa noite do arbítrio, famílias foram divididas, o Brasil enlutou-se. Valeu a pena? Francamente, não. A vasilha ganhou mais uma vez.

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GETÚLIO, de Juremir Machado da Silva. Rio de Janeiro, Record, 430 págs., 2004.
O DIA EM QUE GETÚLIO MATOU ALLENDE E OUTRAS NOVELAS DO PODER, DE Flávio Tavares. Rio de Janeiro, Record, 333 págs., 2004.

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Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br