Espaço Livre

A Sangue Quente                                                                                            voltar
Por Márcio Calafiori

Quarenta anos depois, “A Sangue Frio”, de Truman Capote, ainda choca e serve de alerta. A obra trata do assassinato de quatro membros de uma família americana, ocorrido em Holcomb, uma cidadezinha de 270 habitantes, no Kansas

            Em 25 de setembro de 1965, quando a revista “The New Yorker” publica o primeiro dos quatro capítulos de uma reportagem intitulada “A Sangue Frio”, tem início a última revolução importante na literatura e no jornalismo do século 20. Depois de bater recorde de vendas na revista, em janeiro de 1966 a novela de Truman Capote sai em livro. A partir daí obtém um sucesso ainda mais estrondoso de público e um impacto impressionante de crítica, a favor e contra. Os críticos que discordaram ficaram furiosos, principalmente porque Capote, que não era nada modesto, definiu a obra de “romance verídico, de não-ficção”.

            O raciocínio dos críticos que discordaram era o seguinte: como é que um romance, que lida com a ficção, podia ser classificado de não-ficção? É justamente aí que está a inovação e a surpresa de Capote: ele escreveu uma reportagem que pode ser lida perfeitamente como ficção. No caso, um romance com boa dose de suspense e narrativa cinematográfica.    

            Nos “Agradecimentos” de “A Sangue Frio”, os leitores se deparam com uma explicação de Capote: “Todo o material por mim utilizado nesse livro, quando não é fruto de minha observação direta, provém de arquivos oficiais ou resulta das minhas entrevistas com pessoas diretamente interessadas nessa história, entrevistas que, na maioria dos casos, repetiram-se por tempo indefinido. (...)”. O que Capote quis dizer com isso? A resposta significa uma revolução, responsável pela consagração de nomes até hoje fundamentais na investigação da cultura americana — como os jornalistas Tom Wolfe, Gay Talese, Jimmy Breslin e Hunter Thompson e escritores como Norman Mailer e James Baldwin. Além do próprio Capote, esses caras já faziam um tipo de reportagem cuja proposta era o uso dos recursos literários, com a intenção de aprofundar o seu conteúdo e tornar mais eficiente e sedutora a sua leitura. Essas reportagens podiam ser lidas como contos, técnica que Capote já utilizava desde os anos 40.

            Mas é só a partir de “A Sangue Frio” que esse estilo de reportagem — que depois se convencionou chamar de Novo Jornalismo — obteve respeito e admiração. Ao unir a literatura com o jornalismo, a obra de Capote serviu de modelo e inspiração para tudo o que de mais importante se escreveu nos Estados Unidos a partir de 1965. Todos os jornalistas-escritores americanos foram em busca da sua grande história, do seu grande tema. Em 1966, Hunter Thompson publica “Hell’s Angels” (Conrad Livros); em 1968, Norman Mailer lança “Os Exércitos da Noite” (Record, esgotado) e Tom Wolfe “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico” (Rocco); em 1969, Gay Talese aparece com “O Reino e o Poder — Uma história do New York Times” (Companhia das Letras) e em 1971 com “Honrados Mafiosos” (Expressão e Cultura, esgotado), a história de uma família da máfia italiana e o funcionamento de uma das mais importantes organizações criminosas do mundo.          

            No caso de Norman Mailer, a influência de Capote foi absolutamente vital, pois aos 24 anos Mailer ficara mundialmente famoso com o romance “Os Nus e os Mortos” (1948), mas depois disso a sua carreira de escritor estava apenas morna. Referindo-se às criticas que recebera por “A Sangue Frio”, Capote escreveu: “(...) Vários críticos se queixaram de que romance verídico era uma expressão ambígua, uma mistificação, e que não havia realmente nada de realmente original ou novo no que eu tinha feito. Mas houve quem pensasse de maneira diversa, outros escritores que compreenderam o alcance de minha experiência e se apressaram a pôr a receita em prática — nenhum com mais rapidez do que Norman Mailer, que ganhou muito dinheiro  e recebeu uma porção de prêmios escrevendo romances verídicos (...), embora sempre fizesse questão de jamais classificá-los de ‘romances verídicos’. Não vem ao caso: ele é bom escritor,  ótimo sujeito e me sinto feliz por ter lhe prestado algum serviço. (...)”

            Mailer ganhou dois Pulitzer — em 1969, com “Os Exércitos da Noite” (também premiado com o National Book Award), e em 1980, com “A Canção do Carrasco” (Record, esgotado). Capote nunca foi premiado por “A Sangue Frio” e isso o machucou e o enfureceu: “Eu crio algo realmente inovador, e quem ganha os prêmios? Norman Mailer, que teve a coragem de dizer que era burrice o que eu estava fazendo em ‘A Sangue Frio’; depois ele se senta e faz um plágio perfeito. Não existe um plágio maior em todo o século XX. Ele usou tudo o que fiz, todo o trabalho que tive, a técnica experimental, e plagiou. Mas só uma coisa me magoa: nem o sr. Mailer nem tantos outros que me copiaram, como o sr. [Bob] Woodward e o sr. [Carl] Bernstein, nunca reconheceram que me devem alguma coisa, que fui eu quem inventou essa fórmula. Eles ganharam prêmios e eu não ganhei nada. E eu sei que merecia. A decisão de não me premiar foi totalmente injusta. Então, a essa altura eu posso dizer: ‘Fodam-se todos vocês!’ (...)”. Woodward e Bernstein são os repórteres do “Caso Watergate”, que depois escreveram “Todos os Homens do Presidente” (Francisco Alves, esgotado), usando a técnica inventada por Capote.   

            O monstruoso Perry — Acompanhado de Harper Lee — uma amiga escritora, autora de “O Sol É Para Todos” —, Truman Capote viajou para Holcomb em meados de dezembro de 1959, um mês depois do assassinato da família Clutter. Homossexual assumido, afetado, baixinho (media 1,58), com uma voz fininha de garoto, Capote se sentiu extremamente desconfortável naquele ambiente de “faroeste”. Virou a atração principal da cidade. Os moradores da cidadezinha imitavam os seus trejeitos e a sua voz, mas duas semanas depois era Capote quem os ridicularizava.      

            Até a prisão dos dois assassinos, ocorrida em janeiro de 1960, Capote só pretendia escrever uma boa reportagem para a “New Yorker”, sobre a reação paranóica da cidadezinha ao crime brutal. A revista tinha tradição nesse tipo de reportagem. “Hiroshima” (Companhia das Letras), de John Hersey, é um exemplo disso. Mas quando Capote conheceu Perry Smith, um dos assassinos, compreendeu então que o que tinha em mãos era algo grandioso: uma história intensamente trágica, protagonizada por um personagem ao mesmo tempo humano e monstruoso. E o personagem não precisava ser inventado: estava ali à sua frente!

            Em “A Sangue Frio”, Capote apresenta primeiro o cenário e os personagens, para só depois colocar a brutalidade em cena: “A pequena cidade de Holcomb está situada nas altas planícies de trigo do oeste, área desolada que os outros habitantes do Estado chamam de ‘lá longe’. A cento e doze quilômetros a leste da fronteira com o Colorado, o campo, com seu duro céu azul e o ar límpido do deserto, possui uma atmosfera mais de ‘faroeste’ que de meio-oeste. O sotaque local tem uma farpa do nasal das planícies, uma nasalidade de vaqueiros, e os homens, muitos deles, usam as calças justas das fronteiras, chapéus Stetson e botas de salto alto e bico fino. A terra é plana e as paisagens assustadoramente vastas. Cavalos, manadas de gado, um amontoado de silos erguendo-se grandiosos como templos gregos, são vistos pelo viajante muito antes de a eles chegar. (...)”.

            Investigar o cenário e em seguida as razões que movem os personagens é uma técnica consagrada pelo romance, mas esse tipo de investigação pertence também ao jornalismo, mais precisamente à reportagem. Quarenta anos depois, “A Sangue Frio” ainda surpreende e choca. Capote reconstrói com detalhes como a família Clutter (além dos pais, um casal de filhos: Kenyon, de 15 anos, e Nancy, de 16) foi assassinada por Perry Smith e Dick Hickock. Nesse trecho, Perry conta ao investigador Alvin Dewey como ele e Dick agiram: “(...) Dick levou a lanterna quando fomos passar o esparadrapo na boca do Sr. Clutter e do menino [Kenyon]. Pouco antes de tapar a boca do Sr. Clutter — foram suas últimas palavras — ele me perguntou como estava a mulher dele (...) Disse pro Dick segurar a lanterna, colocar o homem [Sr. Clutter] em foco. Daí apontei a espingarda. A sala explodiu. Ficou toda azul. Era um clarão só. Nunca vou entender como não ouviram o barulho a quilômetros de distância (...)”.           

            O Perry Smith de “A Sangue Frio” é considerado pelo insuspeito Norman Mailer como uma das grandes personagens da literatura americana. Perry teve graves problemas emocionais. Criança ainda foi entregue a um reformatório, onde era insultado pelos colegas e apanhava das freiras por mijar na cama. Perry tinha sensibilidade artística. Queria ser poeta. Lia muito e colecionava palavras para aumentar o vocabulário. Este é um dos poemas de sua autoria que Perry mandou em carta para Capote:

                               

                                “Para além das colinas distantes,

                                Os sons plangentes dos curiangos,

                                 Reverberam em rochas e regatos,

                                 Esse gemido tão plangente!

                                 É o tordo tantas vezes ouvido,

                                 Pretendendo fazer de si um absurdo,

                                 Ou apenas um pássaro melancólico,

                                 Na verdade, triste como eu.”  

                                

           Perry Smith também era compositor. (Na versão de “A Sangue Frio” de 1996, o diretor Jonathan Kaplan usou no filme canções compostas por ele). Em muitos aspectos, Capote se identificava com o assassino, pois até os 10 anos de idade também fora criado por “estranhos” (tios e tias), por causa da separação dos pais. O escritor disse várias vezes aos amigos que teve a sorte de não se tornar um marginal como Perry.  

            Responsável pelas prisões dos assassinos, o investigador Alvin Dewey também tinha uma espécie de respeito por Perry Smith. Na cena do enforcamento, Capote narra: “Dewey fechou os olhos. Manteve-os fechados até que ouviu o baque surdo anunciando um pescoço quebrado por corda. Como a maior parte dos agentes da lei dos Estados Unidos, Dewey tem a certeza de que a pena de morte é um meio de intimidação ao crime violento. Sentia que se a punição se justificava, era o caso presente. A execução anterior [de Dick Hickock] não o perturbara, pois nunca dera muita importância a Hickock, que lhe parecia apenas ‘um ladrãozinho ordinário’ que saíra de sua categoria, vazio, não valia nada. Mas Smith, embora fosse o verdadeiro assassino, despertava outra espécie de reação, pois Perry possuía a alma do animal ferido, da criatura exilada que o detetive não podia menosprezar. Lembrou-se do primeiro encontro com Perry, na sala de interrogatórios em Las Vegas: o menino-homem, quase anão, sentado na cadeira de metal, os pés em botas mal tocando o solo. E foi o que viu, quando abriu de novo os olhos: os mesmos pés infantis, tortos, balançando [na forca]”.  

            Depois de “A Sangue Frio”, Capote nunca mais foi o mesmo. Como artista, entrou em decadência irreversível, até morrer em agosto de 1984, um mês e pouco antes de completar 60 anos, vítima da depressão, do álcool e das drogas pesadas. O seu romance-reportagem entra para a história não só como um dos principais marcos da literatura e do jornalismo do século 20, mas também como um dos relacionamentos mais tensos, neuróticos e complexos de que se tem notícia entre um autor e sua obra.

            Para reconstruir o assassinato da família Clutter, Capote se aproximou dos assassinos e se tornou amigo deles. Além do advogado deles, o escritor era o único que tinha permissão para visitá-los no corredor da morte. E tudo o que Capote conversou com Perry e Dick está no livro, a ponto de muitos leitores ficarem surpresos e até mesmo não entenderem como é que Capote “sabia de tudo aquilo”. Perry e Dick, no entanto, não tinham idéia do que Capote estava escrevendo. Em uma carta ao escritor, Perry escreveu: “Disseram que o livro só vai ser vendido depois da nossa execução. E que o título é A SANGUE FRIO. Quem está mentindo? Parece que alguém está. Francamente, A SANGUE FRIO é de chocar qualquer consciência”.

            Embora tenha se tornado amigo de Perry e Dick, na intimidade Capote queria que eles fossem executados, para que “A Sangue Frio” tivesse um desfecho digno de um romance. Cada adiamento da execução era um drama para Capote. De 1959 a 1965, ele não conseguiu se dedicar a nada além que não fosse a história do assassinato. As três primeiras partes de “A Sangue Frio” foram concluídas em 1962, mas daí em diante Capote ficou esperando o enforcamento dos assassinos, o que só ocorreu em abril de 1965, para desespero e, por paradoxal que seja, para alívio do escritor, cujo sentido foi o de “missão cumprida”.

            A repercussão de “A Sangue Frio” foi imediata e retumbante. De acordo com Gerald Clark, seu biógrafo, Capote ganhou pelo menos dois milhões de dólares com a obra e ficou rico. Ele foi assunto de todas as revistas e jornais americanos importantes e manteve polêmica com críticos e colegas. Mas a história desse assassinato brutal foi a última coisa que Capote escreveu de importante. Nos 19 anos seguintes, ele viveu às custas da sua própria sombra. Mas não é pouco. “A Sangue Frio” inaugurou um método de investigação perfeito, que deveria ser retomado, urgente, pelo bom jornalismo.

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Márcio Calafiori é professor de Jornalismo da Universidade Santa Cecília.