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Unidos pela mesma língua, Brasil e Portugal guardam
características distintas desde terminologias até hábitos
culturais. Trabalhar com esta realidade é um desafio muito maior
do que se imagina para um jornalista, pois as discrepâncias são
enormes. Desta forma, o jornalista Jair Rattner, 43 anos, sendo
18 atuando como correspondente de vários meios de comunicação
brasileiros em Portugal, conversou com os alunos do 4º ano de
Jornalismo sobre o papel de um correspondente internacional e as
comparações entre as imprensas brasileira e portuguesa durante
entrevista coletiva realizada dentro do projeto Mão do
Repórter, do jornal Primeira Impressão, ocorrido no
último dia 16 de agosto.
“O Brasil
interessa muito mais para Portugal, que Portugal para a imprensa
brasileira”, sintetizou Rattner, atualmente correspondente do jornal
O Estado de S. Paulo e da Agência Estado naquele país. Laços
familiares, facilidade com a língua, presença das telenovelas nas
emissoras portuguesas e a ida de jogadores brasileiros para times
portugueses, como o jogador Diego (ex-Santos FC, agora no Porto)
facilitam o interesse português pelo Brasil. “Existem 110 jogadores
brasileiros nos 18 clubes da primeira divisão português”, destaca o
jornalista, salientando também a presença de atletas nascidos no
País, mas naturalizados como portugueses na seleção masculina de
vôlei.
No entanto, o
interesse tem crescido em razão do volume de recursos empregados por
empresários portugueses no Brasil. “Mais da metade dos investimentos
externos estão aqui”, destaca. A Portugal Telecom – que opera a
Vivo, na área de telefonia celular – é um dos exemplos desta
realidade. Não é à toa que o caso Waldomiro Diniz, envolvendo o
assessor direto do ministro José Dirceu, homem forte do Governo
Lula, foi amplamente divulgado pela imprensa lusa.
Jornalismo
A comparação da
prática jornalística entre os dois países também foi objeto de
análise do jornalista. As diferenças são extremas, pois o lead
tradicionalmente encontrado na imprensa brasileira – cuja origem é o
jornalismo norte-americano -, inexiste na portuguesa, a exemplo de
outros países europeus. A origem pode estar na pouca tradição dos
cursos de Jornalismo, cuja primeira turma no país se formou em 1985.
“Boa parte dos jornalistas portugueses são formados em Letras, o que
explica o fato de muitos textos serem mais literários que
jornalísticos. Às vezes, temos que fazer um caça ao lead em alguns
textos”, brinca.
No entanto, com
a Internet e a globalização os jornalistas portugueses têm se
interessado cada vez mais pelo estilo do jornalismo brasileiro, a
exemplo de publicações portuguesas reproduzirem nas edições
seguintes as frases publicadas em revistas nacionais, como Veja,
Época e Isto É.
Futebol
A Eurocopa,
ocorrida no final do semestre passado naquele país, também foi um
dos temas abordados pelo jornalista, após indagação de alunos. Uma
curiosidade levantada por Rattner foi o fato do arquiteto que
projetou o estádio do Sporting, onde ocorreu a final do torneio
entre Portugal e Grécia, ter esquecido da instalação dos placares
nos dois extremos do estádio. Como resultado, foram perdidas 600
cadeiras no empreendimento de 52 mil lugares. O mais interessante é
que o clube ‘doou’ o espaço atrás dos placares para a associação dos
cegos de Lisboa.
Por sua vez,
Rattner também destacou o nacionalismo provocado pelo fato da
seleção portuguesa ter chegado à final. “Há 18 anos resido em
Portugal e nunca tinha visto tal manifestação”. A pedido do técnico
Luiz Felipe Scolari, os portugueses hastearam as bandeiras do país e
se vestiram de verde e vermelho. “Na final, se formou um cordão
humano de 50 quilômetros de filas de pessoas acompanhando o trajeto
do ônibus da seleção ao estádio”, relembra o profissional que antes
de fixar residência em Portugal chegou a morar na Coréia do Sul,
onde atuou em uma rádio que divulgava notícias na língua portuguesa.
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